quinta-feira, 19 de março de 2015

TEMPESTADES E CLAREIRAS

Tempestades e clareiras


As conversas entre eles se desenrolavam magicamente. Ligavam a webcam e falavam pelos cotovelos, sentados ao chão, bebendo café e fumando cigarros, quase sempre até o beiral do amanhecer. Sempre havia algo mais a dizer: eles se compreendiam sutilmente, através de uma miríade de subentendidos nem sempre muito perceptíveis aos olhares mais superficiais, o fluxo prosseguia num emocionante pingue-pongue.


Gabriela pingue


Thiago pongue



Certo dia, embora sem saber exatamente porque, ela resolveu lhe telefonar: queria sair da esfera virtual e encontrar o ilustre desconhecido face a face. Foi um disparo íntimo, ela diria, talvez uma intuição ou, quem sabe, um mero acaso numa quarta-feira de verão, cujo céu, de tão negro, assustava. A vida é cheia de acasos, ela pensou, mas bem que às vezes a gente escolhe uns acasos e outros não. Por exemplo, naquele momento, 28 de dezembro de 2012, às quatro e quarenta e cinco, ela decidiu se encontrar com ele e, ao discar seu número no aparelho telefônico, eliminou quaisquer outros possíveis compromissos. Enquanto seus dedos digitavam, ela pensava: porque não?

Claro que ela buscou em seu íntimo, para se convencer de tal escolha, qualquer teoria que lhe servisse como uma justificativa suficientemente convincente, do tipo que pudesse fazer parecer que a atitude que tomava era bastante coerente, embora sabendo que não havia muita coerência no que fazia. No fundo era um impulso, e tão somente um impulso, nada além disto. Ela admitia que, se parasse para refletir sobre os riscos de sua decisão, simplesmente permaneceria paralisada, sem sair de casa nem para olhar para a rua. Viver é arriscado, pensou.

Já ele, bastante reticente, chegou até a dizer a ela que talvez fosse melhor não se encontrarem, que jamais tinham se visto, que provavelmente aconteceria algo entre os dois e que ele não queria que as coisas acontecessem de maneira tão impulsiva. Entretanto, apesar do grande argumento desarrolhado, terminou ele, também, por ceder a vontade que sentia de vê-la, pensando: porque não?

Ela lhe disse ao telefone: é uma quarta-feira ociosa, e estamos eu e você sozinhos em casa, porque então não nos encontramos e conversamos e bebemos vinho? Invectiva curta e poderosa. Coube a ele apenas duas respostas: sim ou não.

Logo ele que, à época, respondia a boa parte das perguntas que lhe faziam com um talvez, ou então com um quem sabe, ou ainda com um simples e evasivo pode ser que sim (ou pode ser que não, afinal de contas, depende). Ele tinha prometido não prometer nada a ninguém, embora tal afirmação já fosse, também, uma promessa. No entanto, quando se viu pressionando sem nenhum direito a escape, só pode responder em conformidade com seu desejo:

__Sim.

Depois ligou de volta para ela e disse que não, embora cinco minutos depois tenha ligado novamente e dito:

__Sim.

Ao que Gabriela aquiesceu, dizendo que ele não poderia mais mudar de ideia, uma vez que ela estaria a caminho.

O que importa que sejamos desconhecidos? Um pouco de acaso no meio dos dias certamente me animará. Minha reclusão neste apartamento beira já à melancolia, bem que estou precisando de uma visita, pensou ele com seus botões. E então toda a conturbada trajetória dela até a casa dele se iniciou.


“Sabe como chegar à minha casa? É simples! Faz assim e assado que por este caminho é mais fácil, daí é só descer no ponto final. Olha, não tem como errar, viu?” O famoso ponto final somado à certeza de um “não tem como errar”: era impossível ela não chegar, ele pensou. A única coisa que poderia impedi-la era a chuva, cada vez mais dos avessos, prestes a desabar na mais livre das quedas. E foi exatamente o que aconteceu: iniciou-se um verdadeiro samba-enredo de gotejares, trovões e flashes fotográficos celestes seguidos de sombras fátuas. O que parecia tão fácil – chegar a casa dele – transformara-se aparentemente numa missão. No entanto, Gabriela não se importou: as dificuldades mais lhe avivaram do que angustiaram. Decidida como estava, pôs-se em marcha, disposta a cruzar toda a cidade em sua odisseia rumo ao desconhecido, ainda que para atingir tal objetivo fosse necessário alugar um caiaque ou então um escafandro.

Ele permaneceu em seu apartamento, aguardando-a irrequieto, batendo os dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o braço do sofá bege. Enquanto sapateava o chão branco azulejado com o pé direito, ele umedecia a boca com o pouco que restava de saliva na língua. Num claro sintoma de ansiedade, Thiago fitava o relógio pendurado à parede a cada cinco minutos, fantasiando cada um dos momentos da trajetória dela. Enquanto ela parecia vir a nunca mais chegar, ele vislumbrou, talvez um pouco delirante, seus trajes e trejeitos, e tudo o mais que nela se expressasse: seus lábios-sabores, os olhares zigue-zagues, as pernas cruzares, os braços volantes, a cintura-sinuose, a pele e seus odores, todos os fatores que, cruzados, resultavam no ser imaginário dela para ele. Assaltava-lhe aquele friozinho impagável de primeiro encontro no estômago. Ele arrumou com cuidado os objetos pela casa, tudo com a finalidade de causar uma boa impressão, provocando ares de aconchego. Banhou-se, olhou-se no espelho, penteou o cabelo, checou o hálito, entreabriu todas as cortinas para que a luz do sol, caso a chuva parasse, invadisse a casa na medida certa, deixou uma playlist musical pronta, com músicas que iam do suave ao romântico e sensual.

Enquanto os minutos subjetivos variavam em suas durações, o céu claro-escuro desabou. O telefone tocou e ele atendeu prontamente. Àquela altura o aparelho telefônico já tinha se tornado uma extensão de sua mão direita, enquanto a esquerda continuou a dedilhar o braço do sofá. Alô? Gabriela? Onde você está? Em tal lugar? Está chovendo muito aí? Um táxi até aqui? Está louca? A viagem é muito cara e custará o olho da (minha) cara! Será que ela pensou que sou bem de grana? É melhor, desde já, desfazer tal imagem. Olha, desça do táxi, pegue o ônibus 286, desça no ponto final, é só isto, entende? Vai se molhar? Então espere a chuva passar. Não vai passar? Compre um guarda-chuva. Não tem vendedores ambulantes que vendam guarda-chuva? A chuva está tão forte que até os vendedores de guarda-chuva se esconderam? Já se molhou? Resolveu caminhar em meio à chuva? Mas que ousadia! Quem hoje em dia se molha assim, a caminho de um primeiro encontro! Quando chegar aqui lhe dou outra roupa, não se preocupe. A camiseta vai ficar um pouco grande, mas estará seca, a não ser, claro, que você não goste de usar roupas de homem. Não se importa com isto? Maravilha!

E-MAILS DE UM AMOR REVOLUCIONÁRIO

E-mails de um amor revolucionário


Prefácio do editor

Ela o chamava por Raskolnikov ou Rodhka, ele a chamava por Sonia ou Sonietchka, nomes estes retirados do romance Crime e castigo, de Dostoiévski, que ambos liam à época. Gostavam de ler os mesmos livros para depois conversarem a respeito. Por respeito à imaginação poética dos autores, não colocarei aqui seus verdadeiros nomes.

Raskolnikov, não o de Dostoiévski, mas o nosso Raskolnikov, era um homem que trabalhava muito, numa grande corporação em que lhe arrancavam o couro e lhe pagavam um salário, eu diria, quase miserável. Percebe-se desde já que sua situação era muito semelhante à do personagem de Dostoiévski, embora nosso Raskolnikov morasse no Brasil, país tropical e ensolarado na quase totalidade dos dias, em contraste ao terrível frio russo vivenciado pelo personagem de Dostoiévski.

Sonia ou Sonietchka, conforme preferirem, era uma garota frágil vivendo numa família desajustada, exatamente como a personagem homônima de Crime e castigo. Ela trabalhava numa repartição pública, desejando ansiosamente sua exoneração. Portanto, fica claro que, distintamente da personagem de Dostoiévski, nossa Sonia não vendia seu pequeno corpo para sustentar a família e dispunha de uma situação econômica relativamente melhor do que aquela, embora, ainda assim, muito precária.

Eles se conheceram numa oficina literária e começaram a namorar. Como boa parte dos namoros, este também começou por intermédio de olhares recíprocos furtivos e, ao mesmo tempo, desejosos. No entanto, a distância entre suas moradias era grande o suficiente para dificultar seus encontros. Infere-se de tal dificuldade a grande quantidade de e-mails que enviavam um ao outro. A ideia inicial era fazer um romance, contudo, eles não conseguiram criar uma narrativa com a consistência suficiente para tal, preferindo arquivar as mensagens para no futuro, talvez, utilizá-las doutra forma. Foi então que, numa dia em que conversávamos despretensiosamente, Raskolnikov revelou-me o tesouro. Éramos amigos havia muito tempo, de modo tal que ele não se sentiu constrangido em me mostrar os e-mails. Após lê-los fiquei entusiasmado, principalmente com as últimas mensagens, argumentando que ele poderia publicá-las como um conto. Ele aquiesceu e pôs a ideia em prática, fazendo somente pequenas correções pontuais nos textos. Publique os textos junto a outros, numa coletânea de prosa, montada a partir de textos de novos autores, muitos deles excelentes. O conto de Raskolnikov destacou-se, tornando-se, depois, motivo de muita conversa nos círculos literários.

Ela era uma poetisa e ele, um prosador. Eram também grandes apreciadores de cinema e música. Encontrei-os poucas vezes posteriormente, sabendo a respeito deles através de notícias que chegavam vez ou outra, restando-me de concreto as suas mensagens virtuais. Por último deixo a observação de que, diferentemente das personagens de Dostoiévski, eu os considerava um casal muito simpático e até mesmo engraçado.


Eis seus derradeiros e-mails:





De: Rodhia
Enviado em: 08/03/2010
Para: Sonietchka
Assunto: A noite

Olá Sonia,

Sim, cheguei dentro do horário. Admito que ainda me sinto cansado. Se pouco durmo é por preferir as noites. Após sair deste emprego que me consome, é apenas isto que me resta: a noite. Enquanto observo os transeuntes apressados a fim de chegar em casa, este é meu momento de desafogar: é no princípio do azul pós-crepuscular que respiro com alguma calma, e assim vou caminhando, geralmente sem destino, apenas por caminhar, apenas para sentir que não há finalidade alguma no que faço (adoro ser contraproducente). Vago, apenas vago, e enquanto vago, tão somente divago. Aos poucos a cidade se silencia e na escuridão do anoitecer meu espírito se enche de cores, embora no dia seguinte, um tanto de mau humor, eu me levante cedo para pegar no batente.

Preciso te admitir que ando triste. Há algo que dói, uma espécie de sufoco. Talvez eu devesse dormir mais. Algumas horas a mais de sono podem muito bem nos livrar do mau humor, mas se durmo tanto assim o que me sobra nas demais horas além do trabalho extenuante? E, assim sendo, vou vivendo nesta loucura insone, sempre um tanto quanto entorpecido, acompanhado pelas olheiras roxas pendentes. Sônia, somente a noite, e nada além da noite, resta-me.

Às vezes é como se eu já estivesse quase morto, pairando por entre duas dimensões, no limiar da vigília com o desvanecimento. As paisagens embaçam, os horários embaralham, os rostos se tornam difusos, as memórias e palavras se confundem, embora tua imagem permaneça sempre clara em minha mente… Viver é um labirinto, Sônia. Tenho apenas a noite. A noite fugidia à qual me abandono despreocupado. Nos demais momentos Sônia, mais especificamente durante o dia, preciso me cuidar, ficar atento às faturas do mês, às metas da corporação cosmodemoníaca e aos horários com os horários. Ademais sou apenas número, corpo que caminha por entre a multidão, vazio. Ademais este sufoco, as coisas acontecendo na cauda umas das outras. Ademais não há intervalos, instante algum no qual se possa elucidar qualquer coisa, e então transito entre estes dois estados: de dia o automatismo vazio, à noite o divagar caótico.

O que há comigo? Há algo de muito errado comigo, Sônia, e só nosso amor pode me deixar feliz. Este peito que, de tão apertado, se enrijece feito cimento, e pelos nervos cheios de impulsos elétricos nada além de amarga resignação. O coração se acelera, mas o que posso fazer com isto? Se sinto algo, tinjo a tudo com a tinta da melancolia, por entre cafés e tragos, meus olhares baixos e os rasos passos, que tudo passa como se não houvesse acontecido.


Obrigado pela carta,

Continuo apaixonado por você

Sinto saudade

Beijos



Eu



De: Sonia
Enviado em: 08/03/2010
Para: Raskolnikov
Assunto: Ponte de safena

Oi meu amor, porque não dormes? Sei que este emprego te consome, mas, se continuares deste modo, morrerás de infarto! Sabes o que é um infarto? É quando o coração da gente, literalmente, pifa, para de bater, sacou? E, se não pifar de vez, vão te fazer uma ponte de safena. É isto o que tu queres? Creio que não.

Também continuo apaixonada por ti. Espero ansiosamente pelo fim de semana e, por favor, durma um pouco para que eu te encontre acordado e em bom estado, não quero só o bagaço da laranja. Deixe o melhor para mim que o resto não te merece. Ontem escrevi um poema muito bonitinho e quero que leias a fim de emitires tua opinião. Envio-o anexado. Talvez te anime o dia.

Ademais, quero dizer que compreendo tua situação. Também não suporto mais esta repartição pública. Veja só que ironia, todo mundo querendo um cargo público para se encostar até morrer, enquanto eu não vejo a hora de exonerar.



Beijos de sua querida Sônia, que não é insônia e te ama

SEGREDOS DE UM CONDOMÍNIO

O japonês já chegou cagando e vomitando por toda a escada. Bebeu tanto pelos botecos que perdeu o controle dos intestinos. Quando se deu conta de que a bosta desceria sem freio, abaixou as calças e mandou tudo para fora, ali mesmo, nos degraus. Já um pouco aliviado, mas nem tanto assim, terminou também por vomitar próximo à soleira. Procurou a chave do apartamento e depois o buraco onde teria que enfiá-la. Graças a deus, ao contrário da bosta e do vômito que saiu, a chave entrou. Quando um bêbado em seu estado consegue chegar em casa, convenhamos, é preciso comemorar. E assim, cambaleante, desabou ali mesmo, no sofá: as pernas para cima, um braço pendente ao chão, a boca aberta arfante, o hálito alcoólico perfumando o ambiente.

No dia seguinte todos os moradores do edifício comentavam sobre o pedaço de merda e a poça de vômito, mas Sakamoto, obviamente, decidiu se calar a respeito do acontecimento, ainda que o vômito, despejado exatamente em sua soleira, e somado à má fama que ele tinha no condomínio, praticamente o delatassem. Mas somente terão certeza se eu me declarar culpado, ele pensou. Foi então que, diante da não aparição do culpado, os moradores decidiram por bem iniciar uma investigação, abrindo uma comissão investigativa (espécie de CPI do cocô e do refluxo), na qual decidiram que o culpado não poderia sair impune. Encaminharam um pedaço da merda – cuidadosamente colhido no degrau da escada – para o laboratório mais próximo, com a finalidade de descobrir o DNA do cagador e iniciaram imediatamente a coleta da saliva de todos que moravam naquele bloco (todo mundo ali assistia CSI pela TV a gato e sabia que era exatamente assim que uma investigação séria funcionava). Quando chegou a sua vez de disponibilizar um pouco de saliva para a perícia, o japonês cagão, bebedor contumaz, playboy desempregado de carteirinha, fã das noitadas intermináveis, vendo-se sem alternativa a não ser assumir o crime, declarou-o a culpa perante todos. Argumentou que não havia como controlar aquilo, que fora tudo um acidente, que a caganeira era tão grande que certamente não conseguiria chegar até a privada, e blablablá. No entanto, ele não se conteve em apenas assumir o delito, pois, percebendo aquele tom policialesco que tomou conta do condomínio, resolveu, de uma vez por todas, jogar merda no ventilador, dizendo a todos: quem nunca aqui teve uma caganeira que atire o primeiro pedaço de bosta! Diante desta sábia investida samurai ficaram todos quietos, cada qual se lembrando de suas caganeiras no decorrer da vida em autênticos flashbacks, perpassando pela memória as mijadas infantis colchões afora, os vômitos incontroláveis depois de comer churrasquinho grego na rodoviária do centro da cidade, e também as viroses que a empresa de distribuição de água distribuía a todos sem distinguir a classe social. O nissei enchia o caneco todo dia e adorava comer prostitutas, mas era também profundamente cristão. Seus pais, dois velhinhos que tinham voltado ao Japão a fim de juntar dinheiro trabalhando numa fábrica de automóveis muito famosa, enviavam-lhe, todo mês, uma pequena porcentagem do que ganhavam, sem nenhum conhecimento do mal uso que o pimpolho tão querido fazia dos ienes. Foi então que, diante da invectiva magistral do japonês, fez-se um silêncio sepulcral, enquanto ele, colocado ao centro da multidão como se fosse Maria Madalena prestes a ser apedrejada, prosseguiu com seu discurso num tom e estilo curiosamente bíblicos:

__Não me culpem por cagar irmãos! Todos cagamos! Quantas cagadas vós já fizestes em vossas vidas! Eu mesmo, sendo morador deste hospitaleiro condomínio, ainda que bebendo além da média social, vos imploro: não julgueis meu caráter por conta da cachaça! A quantidade de álcool que um homem bebe não pode servir de parâmetro para julgar suas cagadas durante a vida! E vos digo mais: já que o problema é merda, deixo claro que caso me julguem, eis que jogarei merda no ventilador para voar na face de todos, sem distinção!

A vagabundice de Sakamoto lhe permitia observar o cotidiano condominial de modo muito mais apurado do que todos os outros moradores. Ele estava por dentro de tudo: cada fofoca, cada intriga, cada briga de casal, cada crise financeira familiar, cada ordem de despejo. Sakamoto sabia dos podres mais íntimos de praticamente todos os condôminos e, não raras vezes, se aproveitara dos momentos de raiva e angústia dos moradores para ouvir suas lamúrias e, claro, suas confissões, guardando cada segredo que lhe despejavam com a ética de um psicanalista.



A esta altura do campeonato já estavam todos muito preocupados. Ouviu-se então, em tom de espanto, um coro, um ohhhhh! diante da invectiva ninja. Nenhum dos condôminos sabia ao certo a quem o japonês se referia. Cada qual repassava seus pequenos crimes cotidianos pela consciência, levantando a sobrancelha, receando que seus atos mais pútridos viessem à tona. Seu João, do apartamento número 14, traía sua esposa com prostitutas (Sakamoto e ele eram clientes do mesmo meretrício), já Matias, do número 12, era viciadíssimo em jogo, chegando mesmo a deixar a chave do carro zero-quilômetro num bingo clandestino não muito distante dali, do qual Sakamoto, muito envolvido com a malandragem local, conhecia o dono. Fernanda, do 35, trabalhava na noite e inclusive fora contratada certa vez pelo seu João para lhe prestar seus serviços pessoais. Dona Quitéria, do 17, tivera um filho que abandonara quando era ainda uma adolescente (além de sonegar impostos, mas isto não contava, pois todos o faziam), enquanto Jorge, do 41, trabalhava como agiota, extorquindo e ameaçando assassinar pessoas caso não lhes pagassem o valor devido, evidentemente acrescido dos exorbitantes juros que só um agiota podia cobrar (no final das contas, concluía-se que aquele condomínio era muito barra pesada, apesar da aparência de lugar de classe média cristã e da localização pequeno-burguesa, próxima ao centro da cidade). Todos ali, sem exceção, tinham algo terrível a esconder. Foi então que decidiram, unanimemente, perdoar o japonês pela (pequena) cagada, inclusive cancelando a multa de quatro salários-mínimos que lhe seria imposta de acordo com as regras do condomínio. Aliás, cagar na escada revelou-se o menor dos crimes. Dotados que eram de bom senso, todos os condôminos passaram a considerar a cagada nissei um mero detalhe. No dia seguinte todos voltaram às suas respectivas rotinas, alguns roubando, outros matando, estes se prostituindo, aqueles traindo a esposa e tantos outros pequenos e grandes delitos, e assim tudo voltou a mais absoluta normalidade.

DEVIRES

nada tão concreto assim
tudo fuga movimento
deslizes curvilíneos
desenhos afetos
enlaces fusões
reencontros
separações
suspensas
simbiose
texturas
catarses
mágicas
fumaças
rumores
digestões
combustões
odores fugidios
vaporosos fluídos
lembranças vestígios
ritornelos torvelinhos
disparidades Fluxos
órbitas sem centro
vazios eloquentes
lentidões céleres
deslocamentos
afastamentos
dinamismos
tangências
ausências
presenças
potências
devires...


O ESCRITOR

Escritores em crise. Esta categoria subvalorizada de seres humanos. Dizem que somos vagabundos, que deveríamos trabalhar. O mesmo vale para os pintores, atores, cineastas, bailarinas. É preciso procurar uma profissão de verdade, de preferência uma daquelas nas quais lhe arrancam o couro. O trabalho só é tangível quando lhe faz sofrer, quando demanda um grande sacrifício.

Os escritores tentam esmagar insetos com seus mata-mosquitos. Os assuntos lhes escapam: eles tentam capturá-los com uma peneira. Eles querem cozinhar o assunto numa panela. Talvez o fritem, talvez o assem. Eles se agarram a um ponto, uma mancha, qualquer coisa que lhes pareçam pertinente. A maioria do que se diz por aí é baboseira, eles desviam, passam por baixo, por cima, fazem curva, pulam. Os escritores desligam a TV, abandonando ao meio o telejornal e a novela. Desconectam-se das redes sociais virtuais e, ilhados, tornam-se incomunicáveis.

Os escritores desconfiam: eles não podem dizer qualquer coisa. Quem diz qualquer coisa, nada diz. Às vezes eles parecem alienígenas já que, de tanto retorcerem as próprias ideias, colocam-nas numa forma que já não se assemelha a de muita gente, esta mesma gente que, deles desassemelhada, os rotulam de loucos. Talvez eles sejam tão somente cometas, cujas órbitas, erráticas, dançam por entre parágrafos, pontuações e planetas.

Os escritores são pombagiras que guardam o segredo do lado de dentro das coisas. São fluxos-refluxos. Os escritores são tomados pelos ambientes, pelo clima dos dias, pelas fases lunares. Eles variam de acordo com serotoninas e adrenalinas e, por mais que fujam, não são imunes às miríades de disparos dos grandes ecrãs, embora resistam. Os escritores ecoam, são ora onda, ora partícula. Cada escritor é um bóson de higgs: é feliz e triste, cômico e melancólico, pesado e leve. O escritor é uma montanha-russa.