Escritores
em crise. Esta categoria subvalorizada de seres humanos. Dizem que
somos vagabundos, que deveríamos trabalhar. O mesmo vale para os
pintores, atores, cineastas, bailarinas. É preciso procurar uma
profissão de verdade, de preferência uma daquelas nas quais lhe
arrancam o couro. O trabalho só é tangível quando lhe faz sofrer,
quando demanda um grande sacrifício.
Os
escritores tentam esmagar insetos com seus mata-mosquitos. Os
assuntos lhes escapam: eles tentam capturá-los com uma peneira. Eles
querem cozinhar o assunto numa panela. Talvez o fritem, talvez o
assem. Eles se agarram a um ponto, uma mancha, qualquer coisa que lhes pareçam pertinente. A maioria do que se diz por aí é baboseira,
eles desviam, passam por baixo, por cima, fazem curva, pulam. Os
escritores desligam a TV, abandonando ao meio o telejornal e a
novela. Desconectam-se das redes sociais virtuais e,
ilhados, tornam-se incomunicáveis.
Os
escritores desconfiam: eles não podem dizer qualquer coisa. Quem diz
qualquer coisa, nada diz. Às vezes eles parecem alienígenas já
que, de tanto retorcerem as próprias ideias, colocam-nas numa forma
que já não se assemelha a de muita gente, esta mesma gente que,
deles desassemelhada, os rotulam de loucos. Talvez eles sejam tão
somente cometas, cujas órbitas, erráticas, dançam por entre
parágrafos, pontuações e planetas.
Os
escritores são pombagiras que guardam o segredo do lado de dentro
das coisas. São fluxos-refluxos. Os escritores são tomados
pelos ambientes, pelo clima dos dias, pelas fases lunares. Eles
variam de acordo com serotoninas e adrenalinas e, por mais que fujam,
não são imunes às
miríades de disparos dos grandes ecrãs, embora resistam. Os
escritores ecoam, são ora onda, ora partícula. Cada escritor é
um bóson de higgs: é feliz e triste, cômico e melancólico, pesado
e leve. O escritor é uma montanha-russa.
Cada
um dos escritores tem seu caminho, seu modo, suas tortuosidades. Cada
um com sua chave, com seu sotaque, com sua impressão digital.
Escritores telepatas. Prestidigitadores. Escritores que emprestam
tons e timbres de outros escritores. Seus esforços consistem em
colar pedaços improváveis e fragmentar inteiros enganosos.
Talvez lhes movam um desejo de antiguidade. Eu, por exemplo, sou um
escritor que nasceu no meio do caminho. Década de oitenta. Nem
lá, nem cá. Nada de computadores, quiçá telefones celulares.
No máximo o toca-discos e a televisão cúbica e tubular. O rádio,
ao lado do qual eu aguardava aquela música tocar, dedão sobre
o recorder,
ansioso. Infância de fitas cassetes rebobinadas com caneta bic.
Eu era uma criança estranha, quieta, observadora (hoje dizem o
contrário: estranhas são as crianças agitadas, vivídas, que devem
ser tratadas com ritalina). Demorei-me em dar o primeiro beijo na
boca. Eu vi o impeachment e não entendi. Eu vi as poupanças serem
confiscadas e não entendi (minha família não tinha dinheiro a ser
confiscado). Eu vi a perestroica (e não entendi). Vi Baggio chutar a
bola para fora naquele pênalti histórico, e depois vi todos
soltarem fogos de artifício e apertarem suas buzinas e erguerem suas
bandeiras verdes e amarelas (e me emocionei com aquele sentimento que
implantaram em mim). Àquela época o mundo era menor e mais
aconchegante. Eu nem pensava tanto assim. Na maioria do tempo eu
apenas vivia, embora muitas vezes me irritasse com a vida. Quem me
dera poder agora fechar os olhos e sentir apenas uma gota daquela
inocência. Aquele sabor de agora que só sente quem pouco se
preocupa.
E
agora os escritores se engolfam em desatinos, emaranhados na
tragicomédia estúpidabsurda da vida. Desinformam-se e disformam-se
em meio à enxurrada de informações fulminantes. Mil quadros por
segundo, saturações, vertigens. Barroco pós-moderno. Efemeridades.
Toda este gente absorvendo e emitindo tudo, feito condutores que nada
retém, atravessada pelos dados, imersa a se afogar em terabytes, sem
saber onde começa ou termina o labirinto da grande e torrencial
máquina de lixo: manchetes hiperbólicas, celebridades instantâneas,
destaques que duram, no máximo, uma semana. É neste mar que os
escritores mergulham e tentam voltar, colocando a cabeça para fora a
fim de respirar. Os escritores procuram oxigênio puro neste mundo
tão tóxico. Eles abrem forçosamente os olhos para melhor enxergar
o caminho. Disse Ezra Pound: os artistas são as antenas da raça, e
nada pior do que uma civilização que ignora as mensagens de seus
artistas.
Para
além da papa de nenê que é espirrada em suas faces cotidianamente,
os escritores embalam no contrafluxo, recusando o suco homogêneo da
conformação, virando o rosto às soluções enlatadas. Querem nos
dizer como agir, logo eles, que agem tão maldosamente conosco! Como
manter seu casamento, como crescer na carreira profissional, como se
proteger de todos os perigos, como emagrecer, como viver
longevamente. Vozes que se chocam: ninguém em sã consciência pode
seguir todas as cartilhas. Discursos sem sangue ou suor, límpidos e
insípidos, com etiqueta de preço no final. Nenhum borrão: a
fisionomia impassiva do orador diante das câmeras e luzes. A mais
alta expressão da inexpressividade. Monotonia, tédio, indigestão,
suicídio. Depressão e apartamentos duplex. Psicanalistas sabichões
que nos adaptam à vida em sociedade. A inadaptabilidade que
persiste. A contabilidade estéril do império da quantidade. A
medição da alegria em forma de cápsula. No final das contas as
siglas parecem todas iguais, que diferença faz? Al Qaeda, ONU, OTAN,
Unicef? Que diferença faz? CBN, Al Jazeera, CNN, Nike, Apple, C&A.
A confusa e poliglota humanidade se debatendo. A torre de babel.
Velocidade ensurdecedora na qual nos perdemos (se é que algum dia
nos encontramos). A fuga eterna. A distopia. Os desencontros.
Descaminhos. Ruídos urbanos que nos roubam a ausculta. A Terra sem
alma. Tudo o que é escapa. Só o que escapa é. A vida vivida cada
vez mais indiretamente, feito um raio solar perpendicular invernal.
Clarões curtos seguidos da mais absoluta apatia. Montanhas russas de
euforia e melancolia. Ansiolíticos e anfetaminas. Manifestações
fetichizadas: revolução e publicidade. Convulsões sociais seguidas
da mais absoluta paralisia. A vida mofando. Fadiga e doença. Talvez
um fundo de esperança que, quem sabe, de repente, se expanda.
E,
deste modo, cozendo-se, os escritores chegam ao êxtase. Antropofagia
dos conflitos. Sandice. Iluminação. Os escritores balançam na
corda bamba da contingência. Eles acendem suas lanternas e procuram
as pistas. Os escritores precisam do oráculo de Delfos e dos
hexagramas do I Ching. Os escritores magicamente seduzem e
impressionam, efetivando o encanto ao transubstanciar a matéria-prima
da palavra alquimicamente. Lapidando-se, palavra após palavra,
parágrafo após parágrafo, experiência após experiência,
Nenhum comentário:
Postar um comentário