quinta-feira, 19 de março de 2015

O ESCRITOR

Escritores em crise. Esta categoria subvalorizada de seres humanos. Dizem que somos vagabundos, que deveríamos trabalhar. O mesmo vale para os pintores, atores, cineastas, bailarinas. É preciso procurar uma profissão de verdade, de preferência uma daquelas nas quais lhe arrancam o couro. O trabalho só é tangível quando lhe faz sofrer, quando demanda um grande sacrifício.

Os escritores tentam esmagar insetos com seus mata-mosquitos. Os assuntos lhes escapam: eles tentam capturá-los com uma peneira. Eles querem cozinhar o assunto numa panela. Talvez o fritem, talvez o assem. Eles se agarram a um ponto, uma mancha, qualquer coisa que lhes pareçam pertinente. A maioria do que se diz por aí é baboseira, eles desviam, passam por baixo, por cima, fazem curva, pulam. Os escritores desligam a TV, abandonando ao meio o telejornal e a novela. Desconectam-se das redes sociais virtuais e, ilhados, tornam-se incomunicáveis.

Os escritores desconfiam: eles não podem dizer qualquer coisa. Quem diz qualquer coisa, nada diz. Às vezes eles parecem alienígenas já que, de tanto retorcerem as próprias ideias, colocam-nas numa forma que já não se assemelha a de muita gente, esta mesma gente que, deles desassemelhada, os rotulam de loucos. Talvez eles sejam tão somente cometas, cujas órbitas, erráticas, dançam por entre parágrafos, pontuações e planetas.

Os escritores são pombagiras que guardam o segredo do lado de dentro das coisas. São fluxos-refluxos. Os escritores são tomados pelos ambientes, pelo clima dos dias, pelas fases lunares. Eles variam de acordo com serotoninas e adrenalinas e, por mais que fujam, não são imunes às miríades de disparos dos grandes ecrãs, embora resistam. Os escritores ecoam, são ora onda, ora partícula. Cada escritor é um bóson de higgs: é feliz e triste, cômico e melancólico, pesado e leve. O escritor é uma montanha-russa.

Cada um dos escritores tem seu caminho, seu modo, suas tortuosidades. Cada um com sua chave, com seu sotaque, com sua impressão digital. Escritores telepatas. Prestidigitadores. Escritores que emprestam tons e timbres de outros escritores. Seus esforços consistem em colar pedaços improváveis e fragmentar inteiros enganosos. Talvez lhes movam um desejo de antiguidade. Eu, por exemplo, sou um escritor que nasceu no meio do caminho. Década de oitenta. Nem lá, nem cá. Nada de computadores, quiçá telefones celulares. No máximo o toca-discos e a televisão cúbica e tubular. O rádio, ao lado do qual eu aguardava aquela música tocar, dedão sobre o recorder, ansioso. Infância de fitas cassetes rebobinadas com caneta bic. Eu era uma criança estranha, quieta, observadora (hoje dizem o contrário: estranhas são as crianças agitadas, vivídas, que devem ser tratadas com ritalina). Demorei-me em dar o primeiro beijo na boca. Eu vi o impeachment e não entendi. Eu vi as poupanças serem confiscadas e não entendi (minha família não tinha dinheiro a ser confiscado). Eu vi a perestroica (e não entendi). Vi Baggio chutar a bola para fora naquele pênalti histórico, e depois vi todos soltarem fogos de artifício e apertarem suas buzinas e erguerem suas bandeiras verdes e amarelas (e me emocionei com aquele sentimento que implantaram em mim). Àquela época o mundo era menor e mais aconchegante. Eu nem pensava tanto assim. Na maioria do tempo eu apenas vivia, embora muitas vezes me irritasse com a vida. Quem me dera poder agora fechar os olhos e sentir apenas uma gota daquela inocência. Aquele sabor de agora que só sente quem pouco se preocupa.

E agora os escritores se engolfam em desatinos, emaranhados na tragicomédia estúpidabsurda da vida. Desinformam-se e disformam-se em meio à enxurrada de informações fulminantes. Mil quadros por segundo, saturações, vertigens. Barroco pós-moderno. Efemeridades. Toda este gente absorvendo e emitindo tudo, feito condutores que nada retém, atravessada pelos dados, imersa a se afogar em terabytes, sem saber onde começa ou termina o labirinto da grande e torrencial máquina de lixo: manchetes hiperbólicas, celebridades instantâneas, destaques que duram, no máximo, uma semana. É neste mar que os escritores mergulham e tentam voltar, colocando a cabeça para fora a fim de respirar. Os escritores procuram oxigênio puro neste mundo tão tóxico. Eles abrem forçosamente os olhos para melhor enxergar o caminho. Disse Ezra Pound: os artistas são as antenas da raça, e nada pior do que uma civilização que ignora as mensagens de seus artistas.

Para além da papa de nenê que é espirrada em suas faces cotidianamente, os escritores embalam no contrafluxo, recusando o suco homogêneo da conformação, virando o rosto às soluções enlatadas. Querem nos dizer como agir, logo eles, que agem tão maldosamente conosco! Como manter seu casamento, como crescer na carreira profissional, como se proteger de todos os perigos, como emagrecer, como viver longevamente. Vozes que se chocam: ninguém em sã consciência pode seguir todas as cartilhas. Discursos sem sangue ou suor, límpidos e insípidos, com etiqueta de preço no final. Nenhum borrão: a fisionomia impassiva do orador diante das câmeras e luzes. A mais alta expressão da inexpressividade. Monotonia, tédio, indigestão, suicídio. Depressão e apartamentos duplex. Psicanalistas sabichões que nos adaptam à vida em sociedade. A inadaptabilidade que persiste. A contabilidade estéril do império da quantidade. A medição da alegria em forma de cápsula. No final das contas as siglas parecem todas iguais, que diferença faz? Al Qaeda, ONU, OTAN, Unicef? Que diferença faz? CBN, Al Jazeera, CNN, Nike, Apple, C&A. A confusa e poliglota humanidade se debatendo. A torre de babel. Velocidade ensurdecedora na qual nos perdemos (se é que algum dia nos encontramos). A fuga eterna. A distopia. Os desencontros. Descaminhos. Ruídos urbanos que nos roubam a ausculta. A Terra sem alma. Tudo o que é escapa. Só o que escapa é. A vida vivida cada vez mais indiretamente, feito um raio solar perpendicular invernal. Clarões curtos seguidos da mais absoluta apatia. Montanhas russas de euforia e melancolia. Ansiolíticos e anfetaminas. Manifestações fetichizadas: revolução e publicidade. Convulsões sociais seguidas da mais absoluta paralisia. A vida mofando. Fadiga e doença. Talvez um fundo de esperança que, quem sabe, de repente, se expanda.

E, deste modo, cozendo-se, os escritores chegam ao êxtase. Antropofagia dos conflitos. Sandice. Iluminação. Os escritores balançam na corda bamba da contingência. Eles acendem suas lanternas e procuram as pistas. Os escritores precisam do oráculo de Delfos e dos hexagramas do I Ching. Os escritores magicamente seduzem e impressionam, efetivando o encanto ao transubstanciar a matéria-prima da palavra alquimicamente. Lapidando-se, palavra após palavra, parágrafo após parágrafo, experiência após experiência,

Nenhum comentário:

Postar um comentário