Tempestades
e clareiras
As
conversas entre eles se desenrolavam magicamente. Ligavam a webcam
e falavam pelos cotovelos, sentados ao chão, bebendo café e fumando
cigarros, quase sempre até o beiral do amanhecer. Sempre havia algo
mais a dizer: eles se compreendiam sutilmente, através de uma
miríade de subentendidos nem sempre muito perceptíveis aos olhares
mais superficiais, o fluxo prosseguia num emocionante pingue-pongue.
Gabriela
pingue
Thiago
pongue
Certo
dia, embora sem saber exatamente porque, ela resolveu lhe telefonar:
queria sair da esfera virtual e encontrar o ilustre desconhecido face
a face. Foi um disparo íntimo, ela diria, talvez uma intuição ou,
quem sabe, um mero acaso numa quarta-feira de verão, cujo céu, de
tão negro, assustava. A
vida é cheia de acasos,
ela pensou, mas
bem que às vezes a gente escolhe uns acasos e outros não.
Por exemplo, naquele momento, 28 de dezembro de 2012, às quatro e
quarenta e cinco, ela decidiu se encontrar com ele e, ao discar seu
número no aparelho telefônico, eliminou quaisquer outros possíveis
compromissos. Enquanto seus dedos digitavam, ela pensava: porque
não?
Claro
que ela buscou em seu íntimo, para se convencer de tal escolha,
qualquer teoria que lhe servisse como uma justificativa
suficientemente convincente, do tipo que pudesse fazer parecer que a
atitude que tomava era bastante coerente, embora sabendo que não
havia muita coerência no que fazia. No fundo era um impulso, e tão
somente um impulso, nada além disto. Ela admitia que, se parasse
para refletir sobre os riscos de sua decisão, simplesmente
permaneceria paralisada, sem sair de casa nem para olhar para a rua.
Viver
é arriscado,
pensou.
Já
ele, bastante reticente, chegou até a dizer a ela que talvez fosse
melhor não se encontrarem, que jamais tinham se visto, que
provavelmente aconteceria algo entre os dois e que ele não queria
que as coisas acontecessem de maneira tão impulsiva.
Entretanto,
apesar do grande argumento desarrolhado, terminou ele, também, por
ceder a vontade que sentia de vê-la, pensando: porque
não?
Ela
lhe disse ao telefone: é
uma quarta-feira ociosa, e estamos eu e você sozinhos em casa,
porque então não nos encontramos e conversamos e bebemos vinho?
Invectiva curta e poderosa. Coube a ele apenas duas respostas: sim ou
não.
Logo
ele que, à época, respondia a boa parte das perguntas que lhe
faziam com um talvez,
ou então com um quem
sabe,
ou ainda com um simples e evasivo pode
ser que sim (ou
pode ser que não, afinal de contas, depende).
Ele tinha prometido não prometer nada a ninguém, embora tal
afirmação já fosse, também, uma promessa. No entanto, quando se
viu pressionando sem nenhum direito a escape, só pode responder em
conformidade com seu desejo:
__Sim.
Depois
ligou de volta para ela e disse que não, embora cinco minutos depois
tenha ligado novamente e dito:
__Sim.
Ao
que Gabriela aquiesceu, dizendo que ele não poderia mais mudar de
ideia, uma vez que ela estaria a caminho.
O
que importa que sejamos desconhecidos? Um pouco de acaso no meio dos
dias certamente me animará. Minha reclusão neste apartamento beira
já à melancolia, bem que estou precisando de uma visita,
pensou ele com seus botões. E então toda a conturbada trajetória
dela até a casa dele se iniciou.
“Sabe
como chegar à minha casa? É simples! Faz assim e assado que por
este caminho é mais fácil, daí é só descer no ponto final. Olha,
não tem como errar, viu?” O famoso ponto final somado à certeza
de um “não tem como errar”: era impossível ela não chegar, ele
pensou. A única coisa que poderia impedi-la era a chuva, cada vez
mais dos avessos, prestes a desabar na mais livre das quedas. E foi
exatamente o que aconteceu: iniciou-se um verdadeiro samba-enredo de
gotejares, trovões e flashes fotográficos celestes seguidos de
sombras fátuas. O que parecia tão fácil – chegar a casa dele –
transformara-se aparentemente numa missão. No entanto, Gabriela não
se importou: as dificuldades mais lhe avivaram do que angustiaram.
Decidida como estava, pôs-se em marcha, disposta a cruzar toda a
cidade em sua odisseia rumo ao desconhecido, ainda que para atingir
tal objetivo fosse necessário alugar um caiaque ou então um
escafandro.
Ele
permaneceu em seu apartamento, aguardando-a irrequieto, batendo os
dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o braço do sofá
bege. Enquanto sapateava o chão branco azulejado com o pé direito,
ele umedecia a boca com o pouco que restava de saliva na língua. Num
claro sintoma de ansiedade, Thiago fitava o relógio pendurado à
parede a cada cinco minutos, fantasiando cada um dos momentos da
trajetória dela. Enquanto ela parecia vir a nunca mais chegar, ele
vislumbrou, talvez um pouco delirante, seus trajes e trejeitos, e
tudo o mais que nela se expressasse: seus lábios-sabores, os olhares
zigue-zagues, as pernas cruzares, os braços volantes, a
cintura-sinuose, a pele e seus odores, todos os fatores que,
cruzados, resultavam no ser imaginário dela para ele. Assaltava-lhe
aquele friozinho impagável de primeiro encontro no estômago. Ele
arrumou com cuidado os objetos pela casa, tudo com a finalidade de
causar uma boa impressão, provocando ares de aconchego. Banhou-se,
olhou-se no espelho, penteou o cabelo, checou o hálito, entreabriu
todas as cortinas para que a luz do sol, caso
a chuva parasse,
invadisse a casa na medida certa, deixou uma playlist
musical
pronta,
com músicas que iam do suave ao romântico e sensual.
Enquanto
os minutos subjetivos variavam em suas durações, o céu
claro-escuro desabou. O telefone tocou e ele atendeu prontamente.
Àquela altura o aparelho telefônico já tinha se tornado uma
extensão de sua mão direita, enquanto a esquerda continuou a
dedilhar o braço do sofá. Alô?
Gabriela? Onde você está? Em tal lugar? Está chovendo muito aí?
Um táxi até aqui? Está louca? A viagem é muito cara e custará o
olho da (minha) cara! Será que ela pensou que sou bem de grana? É
melhor, desde já, desfazer tal imagem. Olha, desça do táxi, pegue
o ônibus 286, desça no ponto final, é só isto, entende? Vai se
molhar? Então espere a chuva passar. Não vai passar? Compre um
guarda-chuva. Não tem vendedores ambulantes que vendam guarda-chuva?
A chuva está tão forte que até os vendedores de guarda-chuva se
esconderam? Já se molhou? Resolveu caminhar em meio à chuva? Mas
que ousadia! Quem hoje em dia se molha assim, a caminho de um
primeiro encontro! Quando chegar aqui lhe dou outra roupa, não se
preocupe. A camiseta vai ficar um pouco grande, mas estará seca, a
não ser, claro, que você não goste de usar roupas de homem. Não
se importa com isto? Maravilha!
Ela
se despediu do taxista pedindo desculpa por não saber exatamente o
caminho, por ter se enganado, por estar molhada, isto e aquilo. O
taxista, compreensivo, a deixou ao lado de um local coberto. Já
quase ensopada, ela tirou o celular da bolsa e telefonou para ele
ainda mais uma vez, dizendo: chego
em meia hora, viu?
Ele respondeu dizendo que a buscaria na estação, e então saiu de
casa a passos céleres. A chuva então se dissipou e uma clareira se
abriu no zênite que, refletida em seus olhos, emanou um brilho
prateado. Ele sorriu admirado e sentiu o coração se desafogar na
contemplação do céu límpido. Chegando à estação, bastante
ansioso por encontrá-la, Thiago caminhou circularmente pela
plataforma, feito quem participa de um ritual místico. Mal
estacionava um ônibus e lá estava o seu olhar a procurá-la por
entre os passageiros.
Ao
chegar, ela sorriu aliviada, abraçando-o com certa falta de
intimidade, gingando levemente a cintura, expandindo-se com seu corpo
magro e esbelto. Agora
assim, diante um do outro, em carne e osso,
ele pensou, talvez
nos percamos um pouco num desencontro típico de quem se conheceu à
distância.
E ele estava certo: pairava no ar um certo desconcerto dos modos,
alguma falta de sincronia nos passos, movimentares perdido das mãos:
os dois juntos eram como uma banda de música experimental tentando
encontrar o ponto de fusão.
Ela
disse: eu
trouxe uma garrafa de vinho, tudo bem? Você gosta de vinho? Sim, eu
gosto de vinho,
ele respondeu, já lhe perguntando em seguida: e
você, gosta de vodka? Sim, eu gosto de vodka. Então vou comprar uma
garrafa de vodka no posto de gasolina mais próximo
(pegar fila no supermercado, naquele momento, não soaria nada
romântico, ele pensou). Vinho & vodka. Ela fermentada, ele
destilado.
Ela
se preocupava com o fato de absolutamente tudo ser desconhecido:
Entra
aqui, vira ali. Olha, eu não conheço este lugar. Estou perdida.
Você me conduz? Claro, já estou conduzindo.
Os
pensamentos íntimos dele dispararam: não
sei muito bem o que dizer, mas, mesmo assim, vou dizendo. Talvez eu
me embarace, por favor, não repare. Nem tudo o que a boca diz
confere. Às vezes algumas palavras não passam de confete. Abandona
logo este decoro, que a moça parece não se importar.
Após
virarem algumas vezes à direita e tantas outras à esquerda, além
de subirem uma imensa pirambeira,
eles finalmente chegaram ao destino: o apartamento dele. Sinta-se
à vontade.
Sente-se.
A camiseta? A camiseta! Bem, tenho algumas camisetas masculinas.
Serve? Serve, eu não me importo com isto. Troque-se no quarto, feche
a porta. Agora estou mais confortável. Obrigada.
Ambos
os corações, não se sabe muito bem porque, já palpitavam. Alguma
força invisível aproximava cada vez mais seus corpos. Por entre
copos de vinho e cigarros – porque eles decidiram primeiro beber o
vinho – as palavras mais uma vez circularam magicamente. A música
soprava ao fundo e os embalava em sua atmosfera: o cheiro pós-chuva
ventava pelas narinas e a tarde findava despretensiosamente, feito
uma pálpebra em câmera lenta, num meio-tom luminoso típico de
abajur. E assim eles se perderam pelas horas. Suspendeu-se o tempo, a
cidade paralisou, desfizeram-se os nós dos engarrafamentos
automobilísticos, silenciaram-se os tropéis, e todos os
transeuntes, outrora apressados, serenaram.
Probabilidades.
Um
em um milhão,
como se diz por aí. Não sei como você veio parar aqui, em mim, e
tampouco como cheguei aí, em você. Milhões de transeuntes
desencontrados. Quem sabe um daqueles esbarrões cinematográficos,
aquela olhadela interessada no restaurante, as mesas a meia
distância, um aceno tímido ou, talvez, uma ousadia cômica… Quem
sabe uma conversa iniciada ao acaso, na imensa loteria dos dias, um
encontro inesperado, aquele centésimo de segundo bobo que alterou
toda a rota da vida deles: o momento em que se conheceram.
Ela
ria espalhafatosamente enquanto ele, com a fisionomia aparentemente
séria, falava coisas muito engraçadas. Já no primeiro encontro ela
se deu conta de que adorava seu senso de humor. Às vezes ele
disparava piadas curtas e fulminantes, enquanto noutros instantes,
muito sutilmente, soltava ironias sagazes e refinadas. Havia aqueles
que, não dispondo da capacidade suficiente para entender seu senso
de humor – tantas vezes paradoxal e culto – acreditava em tudo o
que ele dizia. Quando alguém lhe perguntava se ele estava falando
sério, ele respondia que sim, retrucando: e
por acaso estou com cara de quem não está falando sério?
O que obviamente tornava a piada ainda mais engraçada, além de
deixar embaraçados aqueles que não a haviam compreendido.
Ela,
por sua vez, era também muito engraçada, embora doutro modo:
declarava-se uma má contadora de piadas, o que não deixava de ser
verdade. Contudo, era exatamente sua falta de jeito que a tornava
engraçada. Ele ria de suas confusões discursivas e também de sua
estranha coordenação motora que fazia com que ela, muitas vezes,
batesse o joelho ou tropeçasse pelos móveis da casa (embora fosse
formada em balé clássico). Sobretudo o agradava o fato dela falar
muito, pois ele também gostava de falar muito, e deste modo não se
sentiria um rolo compressor (pois esta era a impressão que ele tinha
ao conversar com a maioria das pessoas, já que geralmente ninguém
lhe superava a loquacidade). E, para coroar a afinidade que tinham um
com o outro, ela, além de falar muito, era inteligente sobremaneira,
sendo capaz de discorrer sobre uma miríade de temas. Thiago estava
impressionado, pois raríssimas vezes na vida tinha se feito entender
com tanta facilidade: com Gabriela não havia nenhuma necessidade de
rebaixar seu vocabulário ou simplificar os argumentos, além de
conversarem sobre assuntos improváveis.
Após
as ansiedades iniciais de um primeiro encontro, ele se sentiu tão à
vontade com ela, mas tão à vontade, que mal se lembrava de quando,
por toda a sua vida, se sentira de tal modo. Ela, por sua vez,
entregou-se ao fluxo da conversa com uma vivacidade da qual já
sentia saudade. E então viraram a noite, despiram-se, e assim, nus,
amaram-se, dormindo depois abraçados feito dois namorados, acordando
lentamente ao meio-dia, felizes no quarto semiescuro de janelas
fechadas que mascaravam a tarde vindoura, conversando feito quem
amanhece, tomando o café da manhã ainda na cama. Foi simplesmente
acontecendo, ela ficando, enquanto ele querendo. Assistiram a um
filme improvável, jogaram cartas coloridas, tomaram um banho
esfumaçado, trocaram os cheiros perfumados, dividiram os cobertores,
ouviram jazz e jantaram pizzas, entrelaçaram os cabelos quase lisos
e os dedos metacarpos, perderam-se pelo espaço-tempo, ela onda, ele
partícula. Sentiram-se como quem está exatamente no lugar em que
quer estar, como se o encontro de seus corações já estivesse
combinado, agendado no calendário cósmico para acontecer
precisamente naquele dia.
Foi
ela quem tomou a atitude, perguntando: quem tomará a iniciativa? E
então ele, mais uma vez espremido por uma questão que somente
comportava sim
ou
não
como
resposta, avançou com o corpo na direção dela, beijando-a
desajeitadamente. As
bocas e línguas tentaram se encontrar por entre esquerdas e
direitas, acimas e abaixos, premendo-se fortemente, tamanho era o
desejo de contato. Ele procurou a melhor maneira de abraçá-la, numa
tentativa de compreender a matemática de seu pequenino corpo. Ora
acariciava-lhe carinhosamente a nuca, ora a abraçava com os dois
braços, desejando furiosamente possuí-la, ora
deslizava a mão suavemente por seu corpo, dominando-o com tamanha
destreza que ela logo se abandonou aos seus braços.
Passados alguns poucos
minutos, toda a parcimônia acabou. Fecharam os olhos e mergulharam.
Entrelaçados e frementes, seus corpos permaneceram fundidos até a
aurora. A urgência que estava contida explodiu apocalíptica,
transmutou-se em frenesi. Gabriela e Thiago se agarraram até o fim,
quando ele, já lasso, vendo a luminosidade do dia nascente pelo vão
entre as cortinas, desejou a ela um bom dia, acordando-a suavemente.
Ao abrir os olhos e fitar o céu, ela se admirou com as finas nuvens
brancas e flutuantes. Era exatamente seis horas da manhã do dia 29
de dezembro de 2012 e ela estava loucamente apaixonada por aquele
homem, embora acreditasse que não. Ele, por sua vez, perdeu-se pela
madrugada, encontrando-se naquela mulher que, no mais dos dias, seria
sua companheira por entre tempestades e clareiras.
Por
entre tempestades
e
clareiras
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