E-mails
de um amor revolucionário
Prefácio
do editor
Ela
o chamava por Raskolnikov ou Rodhka,
ele a chamava por Sonia ou Sonietchka,
nomes estes retirados do romance Crime
e castigo,
de Dostoiévski, que ambos liam à época. Gostavam de ler os mesmos
livros para depois conversarem a respeito. Por respeito à imaginação
poética dos autores, não colocarei aqui seus verdadeiros nomes.
Raskolnikov,
não o de Dostoiévski, mas o nosso Raskolnikov, era um homem que
trabalhava muito, numa grande corporação em que lhe arrancavam o
couro e lhe pagavam um salário, eu diria, quase miserável.
Percebe-se desde já que sua situação era muito semelhante à do
personagem de Dostoiévski, embora nosso Raskolnikov morasse no
Brasil, país tropical e ensolarado na quase totalidade dos dias, em
contraste ao terrível frio russo vivenciado pelo personagem de
Dostoiévski.
Sonia
ou Sonietchka, conforme preferirem, era uma garota frágil vivendo
numa família desajustada, exatamente como a personagem homônima de
Crime
e castigo.
Ela trabalhava numa repartição pública, desejando ansiosamente sua
exoneração. Portanto, fica claro que, distintamente da personagem
de Dostoiévski, nossa Sonia não vendia seu pequeno corpo para
sustentar a família e dispunha de uma situação econômica
relativamente melhor do que aquela, embora, ainda assim, muito
precária.
Eles
se conheceram numa oficina literária e começaram a namorar. Como
boa parte dos namoros, este também começou por intermédio de
olhares recíprocos furtivos e, ao mesmo tempo, desejosos. No
entanto, a distância entre suas moradias era grande o suficiente
para dificultar seus encontros. Infere-se de tal dificuldade a grande
quantidade de e-mails que enviavam um ao outro. A ideia inicial era
fazer um romance, contudo, eles não conseguiram criar uma narrativa
com a consistência suficiente para tal, preferindo arquivar as
mensagens para no futuro, talvez, utilizá-las doutra forma. Foi
então que, numa dia em que conversávamos despretensiosamente,
Raskolnikov revelou-me o tesouro. Éramos amigos havia muito tempo,
de modo tal que ele não se sentiu constrangido em me
mostrar
os e-mails. Após lê-los fiquei entusiasmado, principalmente com as
últimas mensagens, argumentando que ele poderia publicá-las como um
conto. Ele aquiesceu e pôs a ideia em prática, fazendo somente
pequenas correções pontuais nos textos. Publique os textos junto a
outros, numa coletânea de prosa, montada a partir de textos de novos
autores, muitos deles excelentes. O conto de Raskolnikov destacou-se,
tornando-se, depois, motivo de muita conversa nos
círculos literários.
Ela
era uma poetisa e ele, um prosador. Eram também grandes apreciadores
de cinema e música. Encontrei-os poucas vezes posteriormente,
sabendo a respeito deles através de notícias que chegavam vez ou
outra, restando-me de concreto as suas mensagens virtuais. Por último
deixo a observação de que, diferentemente das personagens de
Dostoiévski, eu os considerava um casal muito simpático e até
mesmo engraçado.
Eis
seus derradeiros e-mails:
De:
Rodhia
Enviado
em: 08/03/2010
Para:
Sonietchka
Assunto:
A noite
Olá
Sonia,
Sim,
cheguei dentro do horário. Admito que ainda me sinto cansado. Se
pouco durmo é por preferir as noites. Após sair deste emprego que
me consome, é apenas isto que me resta: a noite. Enquanto observo os
transeuntes apressados a fim de chegar em casa, este é meu momento
de desafogar: é no princípio do azul pós-crepuscular que respiro
com alguma calma, e assim vou caminhando, geralmente sem destino,
apenas por caminhar, apenas para sentir que não há finalidade
alguma no que faço (adoro ser contraproducente). Vago, apenas vago,
e enquanto vago, tão somente divago. Aos poucos a cidade se silencia
e na escuridão do anoitecer meu espírito se enche de cores, embora
no dia seguinte, um tanto de mau humor, eu me levante cedo para pegar
no batente.
Preciso
te admitir que ando triste. Há algo que dói, uma espécie de
sufoco. Talvez eu devesse dormir mais. Algumas horas a mais de sono
podem muito bem nos livrar do mau humor, mas se durmo tanto assim o
que me sobra nas demais horas além do trabalho extenuante? E, assim
sendo, vou vivendo nesta loucura insone, sempre um tanto quanto
entorpecido, acompanhado pelas olheiras roxas pendentes. Sônia,
somente a noite, e nada além da noite, resta-me.
Às
vezes é como se eu já estivesse quase morto, pairando por entre
duas dimensões, no limiar da vigília com o desvanecimento. As
paisagens embaçam, os horários embaralham, os rostos se tornam
difusos, as memórias e palavras se confundem, embora tua imagem
permaneça sempre clara em minha mente… Viver é um labirinto,
Sônia. Tenho apenas a noite. A noite fugidia à qual me abandono
despreocupado. Nos demais momentos Sônia, mais especificamente
durante o dia, preciso me cuidar, ficar atento às faturas do mês,
às metas da corporação cosmodemoníaca e
aos horários
com os horários. Ademais sou apenas número, corpo que caminha por
entre a multidão, vazio. Ademais este sufoco, as coisas acontecendo
na cauda umas das outras. Ademais não há intervalos, instante algum
no qual se possa elucidar qualquer coisa, e então transito entre
estes dois estados: de dia o automatismo vazio, à noite o divagar
caótico.
O
que há comigo? Há algo de muito errado comigo, Sônia, e só nosso
amor pode me deixar feliz. Este peito que, de tão apertado, se
enrijece feito cimento, e pelos nervos cheios de impulsos elétricos
nada além de amarga resignação. O coração se acelera, mas o que
posso fazer com isto? Se sinto algo, tinjo a tudo com a tinta da
melancolia, por entre cafés e tragos, meus olhares baixos e os rasos
passos, que tudo passa como se não houvesse acontecido.
Obrigado
pela carta,
Continuo
apaixonado por você
Sinto
saudade
Beijos
Eu
De:
Sonia
Enviado
em: 08/03/2010
Para:
Raskolnikov
Assunto:
Ponte de safena
Oi
meu amor, porque não dormes? Sei que este emprego te consome, mas,
se continuares deste modo, morrerás de infarto! Sabes o que é um
infarto? É quando o coração da gente, literalmente, pifa, para de
bater, sacou? E, se não pifar de vez, vão te fazer uma ponte de
safena. É isto o que tu queres? Creio que não.
Também
continuo apaixonada por ti. Espero ansiosamente pelo fim
de semana e, por favor, durma um pouco para que eu te encontre
acordado e em bom estado, não quero só o bagaço da laranja. Deixe
o melhor para mim que o resto não te merece. Ontem escrevi um poema
muito bonitinho e quero que leias a fim de emitires tua opinião.
Envio-o anexado. Talvez te anime o dia.
Ademais,
quero dizer que compreendo tua situação. Também não suporto mais
esta repartição pública. Veja só que ironia, todo mundo querendo
um cargo público para se encostar até morrer, enquanto eu não vejo
a hora de exonerar.
Beijos
de sua querida Sônia, que não é insônia e te ama
De:
Raskolnikov
Enviado
em: 09/03/2010
Para:
Sonia
Assunto:
Nudez
Esforçar-me-ei
para estar descansado quando vierdes aqui. Mas o fato é que continuo
a dormir pouco e sei que isto não é nenhuma novidade. Qualquer dia
desses prometo parar com isto, por ora continuo neste desvario. Ainda
estou novo e, portanto, suporto todos estes solavancos. Certamente
meu coração não pifará agora. Gostas da minha juventude, Sônia?
Ainda viverei muitos verões, tu verás!
Quanto
ao emprego, estou cheio de afazeres. Os chefes vêm aqui a todo
instante, dizendo que é preciso sempre mais. Sequer batem a porta.
Aqui não existe privacidade. Eles observam tudo o que faço, esta
empresa é um grande Big
Brother.
Cada engasgada minha ao telefone vai parar num relatório. Eles vivem
preocupados com números, Sônia, e eu acho isto muito doentio.
Somar,
somar, somar, subtrair, subtrair, subtrair:
eis a sina destes homens de negócios. Eles são bons em multiplicar
e muito ruins em dividir: meu salário mal chega no fim do mês. Mas,
apesar disto,
eles querem que eu esteja sempre sorrindo. Disseram que, seu eu
atingir a meta este mês, penduram um retrato meu no mural com a
seguinte inscrição: funcionário do mês. Algo muito parecido com
aqueles retratos de procurados da polícia, só que neste caso, você
é exaltado. Dá para entender isto, Sônia? Dá? Minha mesa vive
cheia de papéis cheios de palavras e números. Não sei se te
contei, mas sou o responsável por cobrar a dívida das pessoas. Sou
um cobrador, Sônia! Se fulano ou sicrano está devendo, lá vou eu
lhe torrar as paciências! Elogiam-me vez ou outra no intuito de me
provocar a sensação de que sou especial, mas é tudo mentira, viu?
Querem fazer de mim o destaque do mês, pendurar minha fotografia num
mural, sorrindo um sorriso de propaganda de margarina, mas a verdade
é que estou cansado demais e já não aguento tantos telefonemas e
cálculos. Cálculos, Sônia, grandes cálculos. Tem gente que deve
até o chibiu neste mundo.
Quanto
aos outros aspectos da minha vida tenho pouco a lhe dizer.
Resume-se
a planos curtos e rasos. Às vezes leio algum livro com a exclusiva
finalidade de impedir que este trabalho me deixe cada vez mais burro.
Mas é inevitável, quanto mais trabalho, mais burro fico e os livros
são apenas atenuantes deste processo de emburrecimento, e depois
fico pensando no que fazer com tanta informação adquirida, se
durante o dia tudo se resume a cálculos e telefonemas. Sônia, eu já
lhe disse, o que me resta são as madrugadas, já que nos demais
momentos eu me sento nesta cadeira e recebo ordens. Sou um homem
ordenado, viu? Calcule
isto aqui! Ligue para fulano! Segura esta bomba! Aqui
no escritório não há janelas, e só posso ver o céu quando vou ao
banheiro, pelo basculante. Aqui não existe luz do sol, apenas
lâmpadas fluorescentes às centenas. Todos andam bem-vestidos, com
sapatos envernizados, camisas passadinhas, engomadinhos e coisa e
tal, isto é preciso dizer, mas tudo de que preciso é desatar o nó
desta gravata que me sufoca. Sônia, quero ficar nu. Espero não
estar a te incomodar com tamanha ladainha.
Li
teu poema e quero dizer que adorei, continues assim, estás no
caminho certo! O final, em particular, admirou-me, pegando-me de
surpresa, completamente despreparado. Acho fascinante esta tua
fulminância poética. Assim que nos encontrarmos, conversamos a
respeito dele, tudo bem?
Envio-te
também um conto meu, escrito ontem à noite. Faltam ainda algumas
edições, mas o esboço está aí, para sua apreciação. Espero que
goste, mas, se não gostar, não alivie, sua crítica, de todas as
críticas, é a mais bem-vinda.
Beijos,
Eu,
o homem ordenado com saudades de minha Sônia
De:
Sonia
Enviado
em: 09/03/2010
Para:
Raskolnikov
Assunto:
A voz de galinha do Eddie Vedder
Não
me incomodas com tua ladainha. Percebo que tua vida está um tanto
complicada aí hein! Porque não pedes demissão? Já sei: se
pedirdes demissão, não receberás o seguro-desemprego. É uma
sinuca de bico. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Eu
também estou abarrotada aqui. Precisas ver o que é fila! Hoje havia
aqui uma fila que dobrou o quarteirão. Mas o povo não reclama não,
viu? Todo mundo aproveita a fila para botar a fofoca em dia e
reclamar do governo. Reclamar do governo, embora não resolva
absolutamente nada, faz as pessoas se sentirem mais leves, embora
suas vidas continuem a mesma merda de sempre. Desculpe-me o palavrão,
mas é tão gostoso soltar um às vezes, é algo parecido com soltar
gases quando se está com prisão de ventre. Aliás, falando em
ventre, quero ser livre, não como aqueles escravos que, devido à
lei do ventre livre, foram jogados na sarjeta à época do Dom Pedro
II. Talvez livre como aquele cara daquele filme, como é que se chama
mesmo? Na
natureza selvagem,
é isto? A única coisa que me desagradou foi aquela voz fanha do
Eddie Vedder, parecida com a voz de uma galinha, durante aquelas
tomadas panorâmicas do filme, eu gostaria muito mais se tivessem
contratado o Philip Glass para fazer a trilha sonora. Ôpa, tive um
momento nerd,
mas você sabe, sou uma nerd,
apaixonada por você, mas uma nerd.
Estás
preparado para o final de semana? Quero uma daquelas transas
homéricas, ao final das quais estamos pingando de suor e mal
conseguimos levantar da cama. Aguenta? Relaxe um pouco, esqueça do
trabalho, beba uma cerveja no boteco da esquina, fume um baseado,
bata uma punheta, mas não deixe, de forma alguma, o trabalho te
consumir desta maneira, senão, o que restará de ti para mim?
Até
sábado, que até proletário de vez em quando desbunda.
Beijo
na boca de sua
Sonia
PS:
Gostei
muito do texto, já pensou em pedir para aquele teu amigo editor
publicar teus escritos? Acho que estás perdendo tempo. Se eu
escrevesse tão bem quanto ti, já estava correndo atrás disto.
De:
Raskolnikov
Enviado
em: 10/03/2010
Para:
Sonia
Assunto:
O
liame entre a fantasia e a realidade
Por
que será que quando me envias um beijo na boca sinto um frio
perpassando meu estômago?
Às
vezes a fantasia que nasce de um desejo é tão intensa que toca,
talvez por um segundo, a realidade…
Quase
sinto tua boca a encostar-se à minha… Quase…
Beijos,
Assinado:
tu sabes quem
De:
Sonia
Enviada
em: 10/03/2010
Para:
Raskolnikov
Assunto:
Vem ni mim
Deixa
de lero-lero e vem ni mim que eu tô facinho.
Sonia
De:
Raskolnikov
Enviada
em: 10/03/2010
Para:
Sonia
Assunto:
Um homem à beira de um ataque de nervos
Quequeisso
Sonia? Andas ouvindo funk? Eu, sinceramente, não conhecia esta tua
faceta. Mas não me espanta, com esta tua família desajustada, deve
ser isto o que ouvem na tua casa, daí tu pegaste a coisa toda por
osmose. Não te sintas ofendida, mas é que não pude deixar tal
passar tal observação.
Sinto
que estou com a garganta inflamada, vai ver preciso beber mais água.
Mas a cada vez que me levanto da cadeira para ir ao bebedouro, eles
disparam um cronômetro dedo-duro. Sim, além de ordenado, eu sou
cronometrado, veja só! Acho que deviam limpar o ar-condicionado
daqui, já dá até para ver a poeira voando no ar. Mais algum tempo
nesta profissão e me aposento por invalidez, o que talvez não seja
de todo ruim. Haja voz para tanto telefonema e dedos para tantos
cálculos! Na verdade, Sonia, espero que me demitam em breve, pois
estou à beira de um ataque de nervos! Já viste aquele filme,
Mulheres
à beira de um ataque de nervos?
Então, eu sou um homem à beira de um ataque de nervos. Chego cada
vez mais e mais atrasado e ainda por cima não entrego as tarefas.
Minha mesa está abarrotada de papéis e às vezes durmo sentado, com
a mão no queixo, e ainda assim, acredite, insistem em me manter
aqui, enquanto aguardo ansiosamente a carta de alforria. Já implorei
que me demitam, mas parece que querem me fazer sofrer em doses
homeopáticas até que seja eu a pedir as contas. Noutro dia fui ao
banheiro cagar e fiquei por mais de meia hora ao vaso, tirando um
cochilo, e então alguns colegas ficaram preocupados com tamanha
demora e pediram a um funcionário da limpeza que fosse verificar o
que tinha acontecido (já que, se saíssem de suas mesas, o
cronômetro dedo-duro seria disparado). Abri os olhos assustado
diante de tamanha invasão de privacidade, hoje em dia não se pode
nem dormir sentado na privada em paz (que absurdo!). O homem da
limpeza me olhou, segurando a vassoura na mão, e disse: você estava
dormindo? Respondi que sim, que isto era óbvio, que rezando é que
eu não estava, que sentia sono e que o banheiro era o único lugar
onde se podia dormir tranquilamente, ainda que o vaso sanitário não
fosse lá tão confortável. Quando saí, minha chefe me chamou para
conversar e disse que analisaria a possibilidade de me demitir, haja
vista minha evidente falta de vontade, e então eu a agradeci e
voltei aos telefonemas e cálculos consideravelmente mais feliz,
sentindo que há uma luz no fim do vaso, quero dizer, no fim do
túnel. Em breve serei um desempregado feliz, embora me preocupe a
falta de dinheiro que o desemprego acarretará, mas com isto me
preocupo depois, o que importa agora é sair desta corporação
demoníaca.
Que
achas de irmos ao cinema no final de semana?
Beijos,
Um
proletário à beira da demissão
De:
Sonia
Enviada
em: 11/03/2010
Para:
Raskolnikov
Assunto:
Faça
o que tu queres pois é tudo da lei
Lindinho!
Sinto-me
tão feliz quando decides, depois de tanta a opressão e exploração,
enfrentar a situação. Há tantos outros empregos por aí! Vais
fazer o que tu queres pois é tudo da lei. Aprendi isto numa música
dum cara que se chama Raul Seixas, já ouviu? Muito louco, usava uns
óculos escuros, cantava e tocava guitarra, misturava música daqui
de dentro com a música de lá de fora, um arraso! Além do mais,
convenhamos, qualquer emprego é melhor do que ser operador de
telemarketing, ainda mais de cobrança! Não tenhas medo, liberte-se!
Tomara que tua chefe te demita o quanto antes, pois desta forma
podemos pegar o dinheiro do FGTS e viajar por aí, o que achas? Já
até imaginei uma praia ou um sítio. Preferes praia ou sítio?
Ahhh... como desejo ficar sitiada com você, meu proletário
revoltado, meu herói comunista!
Estou
torcendo por sua demissão!
Te
amo
Sônia
De:
Raskolnikov
Enviada
em: 11/03/2010
Para:
Sonia
Assunto:
A
barata kafkiana
Como
fico feliz por serdes uma mulher que não se importa com o fato de um
homem perder seu emprego! Sabe como é hoje em dia: se és um
desemprego, torna-te automaticamente um alienígena social,
transforma-te naquela barata do livro do Kafka.
Hoje
me convidaram para conversar, a sós, numa salinha. Senti que era um
momento especial, tive até frio na barriga. Quando me sentei na
cadeira giratória, minha chefe, com aquela cara de mocreia, já
cansada das minhas eternas pseudocagadas no banheiro e vencida em
sua luta contra um vagabundo incorrigível, tirou da gaveta o papel
de demissão, que assinei prontamente com uma linda rubrica, não sem
antes dar uma lidinha (sou vagabundo, mas não sou burro). Foi um
momento tão feliz! As trombetas soaram! Meus olhos chegaram a saltar
da cara, brilhantes. Juntei minhas tralhas e piquei a mula, sem
sequer me despedir, por que daí teria que aguentar os abraços e as
falas e toda aquela falsidade. Saí em plena luz do dia, abandonando
todos aqueles cálculos e telefonemas infames. Minha querida, estou
radiante, a demissão é sempre um dos momentos mais felizes na vida
de um homem, o que realmente não consigo compreender é como alguém
é capaz de ficar feliz quando está empregado.
Beijo,
Assinado:
Desempregado
feliz
De:
Raskolnikov
Enviada
em: 11/03/2010
Para:
Sonia
Assunto:
No
Uruguai a maconha é legalize.
Não
te importes com isto. Esqueças. Emprego ruim a gente deixa para
trás. Levante a cabeça! Hoje é sexta-feira. Amanhã te encontro na
rodoviária,
pode ser? Que achas de levarmos as mochilas e de lá procurarmos um
destino? Sabe aqueles road
movies?
Que acha de peregrinarmos? Depois a gente vê o que faz. Aliás, se
não me exoneram, serei eu a abandonar o emprego. Será uma aventura
e tanto, nós dois por este mundão afora. O primeiro destino pode
ser o Uruguai, o que acha? Lá a maconha é legalize!
Até
daqui a pouco
Assinado:
Uma quase
ex-empregada
pública que não quer
se encostar em seu emprego
até morrer
E
foi assim, ao fim dos empregos, que o amor deles se fortaleceu,
pensou Raskolnikov.
Nenhum homem que trabalha demais pode amar. O excesso de trabalho é
o inimigo número um do amor, embora sua avó lhe dissesse, com muita
frequência, que “quando a miséria entra pela porta, o amor saí
pela janela”, o que não deixa, também, de ter seu fundo de
verdade. Mas o caso é que Raskolnikov e Sonia não estavam
miseráveis e tinham ainda muito o que viver. Ele levou algum tempo
para se acostumar com o tempo livre, pois por mais que os homens
detestem seus empregos, é fato que o trabalho lhes propicia um senso
de rotina que muitas vezes os fazem se sentir seguros, embora possam
ser demitidos a qualquer momento neste mundo de subempregos cada vez
mais precários. Raskolnikov não sabia onde se empregaria novamente,
e isto tampouco importou durante a viagem que ele trilhou com Sonia.
Eles percorreram a América do Sul e gastaram todas as suas economias
nisto. Foram até mesmo para Machu
Picchu!
Ao
voltarem, Raskolnikov conseguiu algum sucesso como escritor, ao menos
o suficiente para viver tranquilamente. Sonia, por sua vez, tornou-se
terapeuta holística, o que no fundo sempre fora sua grande paixão,
embora jamais tenha abandonado a poesia, à qual se dedicava, com
ainda mais inspiração, em seu tempo livre. Cuidar da saúde física
e mental das pessoas era muito mais prazeroso do que preencher papéis
burocráticos na repartição pública, diante de filas homéricas de
cidadãos ignorantes e alienados. O mesmo se pode dizer de
Raskolnikov, que nunca mais precisou trabalhar como cobrador,
evitando até mesmo passar diante de qualquer escritório de cobrança
dali por diante, preferindo antes atravessar a rua. Bem que já dizia
Leminski:
isso
de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
Nenhum comentário:
Postar um comentário