quinta-feira, 19 de março de 2015

E-MAILS DE UM AMOR REVOLUCIONÁRIO

E-mails de um amor revolucionário


Prefácio do editor

Ela o chamava por Raskolnikov ou Rodhka, ele a chamava por Sonia ou Sonietchka, nomes estes retirados do romance Crime e castigo, de Dostoiévski, que ambos liam à época. Gostavam de ler os mesmos livros para depois conversarem a respeito. Por respeito à imaginação poética dos autores, não colocarei aqui seus verdadeiros nomes.

Raskolnikov, não o de Dostoiévski, mas o nosso Raskolnikov, era um homem que trabalhava muito, numa grande corporação em que lhe arrancavam o couro e lhe pagavam um salário, eu diria, quase miserável. Percebe-se desde já que sua situação era muito semelhante à do personagem de Dostoiévski, embora nosso Raskolnikov morasse no Brasil, país tropical e ensolarado na quase totalidade dos dias, em contraste ao terrível frio russo vivenciado pelo personagem de Dostoiévski.

Sonia ou Sonietchka, conforme preferirem, era uma garota frágil vivendo numa família desajustada, exatamente como a personagem homônima de Crime e castigo. Ela trabalhava numa repartição pública, desejando ansiosamente sua exoneração. Portanto, fica claro que, distintamente da personagem de Dostoiévski, nossa Sonia não vendia seu pequeno corpo para sustentar a família e dispunha de uma situação econômica relativamente melhor do que aquela, embora, ainda assim, muito precária.

Eles se conheceram numa oficina literária e começaram a namorar. Como boa parte dos namoros, este também começou por intermédio de olhares recíprocos furtivos e, ao mesmo tempo, desejosos. No entanto, a distância entre suas moradias era grande o suficiente para dificultar seus encontros. Infere-se de tal dificuldade a grande quantidade de e-mails que enviavam um ao outro. A ideia inicial era fazer um romance, contudo, eles não conseguiram criar uma narrativa com a consistência suficiente para tal, preferindo arquivar as mensagens para no futuro, talvez, utilizá-las doutra forma. Foi então que, numa dia em que conversávamos despretensiosamente, Raskolnikov revelou-me o tesouro. Éramos amigos havia muito tempo, de modo tal que ele não se sentiu constrangido em me mostrar os e-mails. Após lê-los fiquei entusiasmado, principalmente com as últimas mensagens, argumentando que ele poderia publicá-las como um conto. Ele aquiesceu e pôs a ideia em prática, fazendo somente pequenas correções pontuais nos textos. Publique os textos junto a outros, numa coletânea de prosa, montada a partir de textos de novos autores, muitos deles excelentes. O conto de Raskolnikov destacou-se, tornando-se, depois, motivo de muita conversa nos círculos literários.

Ela era uma poetisa e ele, um prosador. Eram também grandes apreciadores de cinema e música. Encontrei-os poucas vezes posteriormente, sabendo a respeito deles através de notícias que chegavam vez ou outra, restando-me de concreto as suas mensagens virtuais. Por último deixo a observação de que, diferentemente das personagens de Dostoiévski, eu os considerava um casal muito simpático e até mesmo engraçado.


Eis seus derradeiros e-mails:





De: Rodhia
Enviado em: 08/03/2010
Para: Sonietchka
Assunto: A noite

Olá Sonia,

Sim, cheguei dentro do horário. Admito que ainda me sinto cansado. Se pouco durmo é por preferir as noites. Após sair deste emprego que me consome, é apenas isto que me resta: a noite. Enquanto observo os transeuntes apressados a fim de chegar em casa, este é meu momento de desafogar: é no princípio do azul pós-crepuscular que respiro com alguma calma, e assim vou caminhando, geralmente sem destino, apenas por caminhar, apenas para sentir que não há finalidade alguma no que faço (adoro ser contraproducente). Vago, apenas vago, e enquanto vago, tão somente divago. Aos poucos a cidade se silencia e na escuridão do anoitecer meu espírito se enche de cores, embora no dia seguinte, um tanto de mau humor, eu me levante cedo para pegar no batente.

Preciso te admitir que ando triste. Há algo que dói, uma espécie de sufoco. Talvez eu devesse dormir mais. Algumas horas a mais de sono podem muito bem nos livrar do mau humor, mas se durmo tanto assim o que me sobra nas demais horas além do trabalho extenuante? E, assim sendo, vou vivendo nesta loucura insone, sempre um tanto quanto entorpecido, acompanhado pelas olheiras roxas pendentes. Sônia, somente a noite, e nada além da noite, resta-me.

Às vezes é como se eu já estivesse quase morto, pairando por entre duas dimensões, no limiar da vigília com o desvanecimento. As paisagens embaçam, os horários embaralham, os rostos se tornam difusos, as memórias e palavras se confundem, embora tua imagem permaneça sempre clara em minha mente… Viver é um labirinto, Sônia. Tenho apenas a noite. A noite fugidia à qual me abandono despreocupado. Nos demais momentos Sônia, mais especificamente durante o dia, preciso me cuidar, ficar atento às faturas do mês, às metas da corporação cosmodemoníaca e aos horários com os horários. Ademais sou apenas número, corpo que caminha por entre a multidão, vazio. Ademais este sufoco, as coisas acontecendo na cauda umas das outras. Ademais não há intervalos, instante algum no qual se possa elucidar qualquer coisa, e então transito entre estes dois estados: de dia o automatismo vazio, à noite o divagar caótico.

O que há comigo? Há algo de muito errado comigo, Sônia, e só nosso amor pode me deixar feliz. Este peito que, de tão apertado, se enrijece feito cimento, e pelos nervos cheios de impulsos elétricos nada além de amarga resignação. O coração se acelera, mas o que posso fazer com isto? Se sinto algo, tinjo a tudo com a tinta da melancolia, por entre cafés e tragos, meus olhares baixos e os rasos passos, que tudo passa como se não houvesse acontecido.


Obrigado pela carta,

Continuo apaixonado por você

Sinto saudade

Beijos



Eu



De: Sonia
Enviado em: 08/03/2010
Para: Raskolnikov
Assunto: Ponte de safena

Oi meu amor, porque não dormes? Sei que este emprego te consome, mas, se continuares deste modo, morrerás de infarto! Sabes o que é um infarto? É quando o coração da gente, literalmente, pifa, para de bater, sacou? E, se não pifar de vez, vão te fazer uma ponte de safena. É isto o que tu queres? Creio que não.

Também continuo apaixonada por ti. Espero ansiosamente pelo fim de semana e, por favor, durma um pouco para que eu te encontre acordado e em bom estado, não quero só o bagaço da laranja. Deixe o melhor para mim que o resto não te merece. Ontem escrevi um poema muito bonitinho e quero que leias a fim de emitires tua opinião. Envio-o anexado. Talvez te anime o dia.

Ademais, quero dizer que compreendo tua situação. Também não suporto mais esta repartição pública. Veja só que ironia, todo mundo querendo um cargo público para se encostar até morrer, enquanto eu não vejo a hora de exonerar.



Beijos de sua querida Sônia, que não é insônia e te ama




De: Raskolnikov
Enviado em: 09/03/2010
Para: Sonia
Assunto: Nudez

Esforçar-me-ei para estar descansado quando vierdes aqui. Mas o fato é que continuo a dormir pouco e sei que isto não é nenhuma novidade. Qualquer dia desses prometo parar com isto, por ora continuo neste desvario. Ainda estou novo e, portanto, suporto todos estes solavancos. Certamente meu coração não pifará agora. Gostas da minha juventude, Sônia? Ainda viverei muitos verões, tu verás!

Quanto ao emprego, estou cheio de afazeres. Os chefes vêm aqui a todo instante, dizendo que é preciso sempre mais. Sequer batem a porta. Aqui não existe privacidade. Eles observam tudo o que faço, esta empresa é um grande Big Brother. Cada engasgada minha ao telefone vai parar num relatório. Eles vivem preocupados com números, Sônia, e eu acho isto muito doentio. Somar, somar, somar, subtrair, subtrair, subtrair: eis a sina destes homens de negócios. Eles são bons em multiplicar e muito ruins em dividir: meu salário mal chega no fim do mês. Mas, apesar disto, eles querem que eu esteja sempre sorrindo. Disseram que, seu eu atingir a meta este mês, penduram um retrato meu no mural com a seguinte inscrição: funcionário do mês. Algo muito parecido com aqueles retratos de procurados da polícia, só que neste caso, você é exaltado. Dá para entender isto, Sônia? Dá? Minha mesa vive cheia de papéis cheios de palavras e números. Não sei se te contei, mas sou o responsável por cobrar a dívida das pessoas. Sou um cobrador, Sônia! Se fulano ou sicrano está devendo, lá vou eu lhe torrar as paciências! Elogiam-me vez ou outra no intuito de me provocar a sensação de que sou especial, mas é tudo mentira, viu? Querem fazer de mim o destaque do mês, pendurar minha fotografia num mural, sorrindo um sorriso de propaganda de margarina, mas a verdade é que estou cansado demais e já não aguento tantos telefonemas e cálculos. Cálculos, Sônia, grandes cálculos. Tem gente que deve até o chibiu neste mundo.

Quanto aos outros aspectos da minha vida tenho pouco a lhe dizer.
Resume-se a planos curtos e rasos. Às vezes leio algum livro com a exclusiva finalidade de impedir que este trabalho me deixe cada vez mais burro. Mas é inevitável, quanto mais trabalho, mais burro fico e os livros são apenas atenuantes deste processo de emburrecimento, e depois fico pensando no que fazer com tanta informação adquirida, se durante o dia tudo se resume a cálculos e telefonemas. Sônia, eu já lhe disse, o que me resta são as madrugadas, já que nos demais momentos eu me sento nesta cadeira e recebo ordens. Sou um homem ordenado, viu? Calcule isto aqui! Ligue para fulano! Segura esta bomba! Aqui no escritório não há janelas, e só posso ver o céu quando vou ao banheiro, pelo basculante. Aqui não existe luz do sol, apenas lâmpadas fluorescentes às centenas. Todos andam bem-vestidos, com sapatos envernizados, camisas passadinhas, engomadinhos e coisa e tal, isto é preciso dizer, mas tudo de que preciso é desatar o nó desta gravata que me sufoca. Sônia, quero ficar nu. Espero não estar a te incomodar com tamanha ladainha.

Li teu poema e quero dizer que adorei, continues assim, estás no caminho certo! O final, em particular, admirou-me, pegando-me de surpresa, completamente despreparado. Acho fascinante esta tua fulminância poética. Assim que nos encontrarmos, conversamos a respeito dele, tudo bem?

Envio-te também um conto meu, escrito ontem à noite. Faltam ainda algumas edições, mas o esboço está aí, para sua apreciação. Espero que goste, mas, se não gostar, não alivie, sua crítica, de todas as críticas, é a mais bem-vinda.


Beijos,

Eu, o homem ordenado com saudades de minha Sônia




De: Sonia
Enviado em: 09/03/2010
Para: Raskolnikov
Assunto: A voz de galinha do Eddie Vedder

Não me incomodas com tua ladainha. Percebo que tua vida está um tanto complicada aí hein! Porque não pedes demissão? Já sei: se pedirdes demissão, não receberás o seguro-desemprego. É uma sinuca de bico. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Eu também estou abarrotada aqui. Precisas ver o que é fila! Hoje havia aqui uma fila que dobrou o quarteirão. Mas o povo não reclama não, viu? Todo mundo aproveita a fila para botar a fofoca em dia e reclamar do governo. Reclamar do governo, embora não resolva absolutamente nada, faz as pessoas se sentirem mais leves, embora suas vidas continuem a mesma merda de sempre. Desculpe-me o palavrão, mas é tão gostoso soltar um às vezes, é algo parecido com soltar gases quando se está com prisão de ventre. Aliás, falando em ventre, quero ser livre, não como aqueles escravos que, devido à lei do ventre livre, foram jogados na sarjeta à época do Dom Pedro II. Talvez livre como aquele cara daquele filme, como é que se chama mesmo? Na natureza selvagem, é isto? A única coisa que me desagradou foi aquela voz fanha do Eddie Vedder, parecida com a voz de uma galinha, durante aquelas tomadas panorâmicas do filme, eu gostaria muito mais se tivessem contratado o Philip Glass para fazer a trilha sonora. Ôpa, tive um momento nerd, mas você sabe, sou uma nerd, apaixonada por você, mas uma nerd.

Estás preparado para o final de semana? Quero uma daquelas transas homéricas, ao final das quais estamos pingando de suor e mal conseguimos levantar da cama. Aguenta? Relaxe um pouco, esqueça do trabalho, beba uma cerveja no boteco da esquina, fume um baseado, bata uma punheta, mas não deixe, de forma alguma, o trabalho te consumir desta maneira, senão, o que restará de ti para mim?

Até sábado, que até proletário de vez em quando desbunda.




Beijo na boca de sua

Sonia


PS: Gostei muito do texto, já pensou em pedir para aquele teu amigo editor publicar teus escritos? Acho que estás perdendo tempo. Se eu escrevesse tão bem quanto ti, já estava correndo atrás disto.



De: Raskolnikov
Enviado em: 10/03/2010
Para: Sonia
Assunto: O liame entre a fantasia e a realidade

Por que será que quando me envias um beijo na boca sinto um frio perpassando meu estômago?

Às vezes a fantasia que nasce de um desejo é tão intensa que toca, talvez por um segundo, a realidade…

Quase sinto tua boca a encostar-se à minha… Quase…


Beijos,

Assinado: tu sabes quem



De: Sonia
Enviada em: 10/03/2010
Para: Raskolnikov
Assunto: Vem ni mim


Deixa de lero-lero e vem ni mim que eu tô facinho.


Sonia



De: Raskolnikov
Enviada em: 10/03/2010
Para: Sonia
Assunto: Um homem à beira de um ataque de nervos

Quequeisso Sonia? Andas ouvindo funk? Eu, sinceramente, não conhecia esta tua faceta. Mas não me espanta, com esta tua família desajustada, deve ser isto o que ouvem na tua casa, daí tu pegaste a coisa toda por osmose. Não te sintas ofendida, mas é que não pude deixar tal passar tal observação.

Sinto que estou com a garganta inflamada, vai ver preciso beber mais água. Mas a cada vez que me levanto da cadeira para ir ao bebedouro, eles disparam um cronômetro dedo-duro. Sim, além de ordenado, eu sou cronometrado, veja só! Acho que deviam limpar o ar-condicionado daqui, já dá até para ver a poeira voando no ar. Mais algum tempo nesta profissão e me aposento por invalidez, o que talvez não seja de todo ruim. Haja voz para tanto telefonema e dedos para tantos cálculos! Na verdade, Sonia, espero que me demitam em breve, pois estou à beira de um ataque de nervos! Já viste aquele filme, Mulheres à beira de um ataque de nervos? Então, eu sou um homem à beira de um ataque de nervos. Chego cada vez mais e mais atrasado e ainda por cima não entrego as tarefas. Minha mesa está abarrotada de papéis e às vezes durmo sentado, com a mão no queixo, e ainda assim, acredite, insistem em me manter aqui, enquanto aguardo ansiosamente a carta de alforria. Já implorei que me demitam, mas parece que querem me fazer sofrer em doses homeopáticas até que seja eu a pedir as contas. Noutro dia fui ao banheiro cagar e fiquei por mais de meia hora ao vaso, tirando um cochilo, e então alguns colegas ficaram preocupados com tamanha demora e pediram a um funcionário da limpeza que fosse verificar o que tinha acontecido (já que, se saíssem de suas mesas, o cronômetro dedo-duro seria disparado). Abri os olhos assustado diante de tamanha invasão de privacidade, hoje em dia não se pode nem dormir sentado na privada em paz (que absurdo!). O homem da limpeza me olhou, segurando a vassoura na mão, e disse: você estava dormindo? Respondi que sim, que isto era óbvio, que rezando é que eu não estava, que sentia sono e que o banheiro era o único lugar onde se podia dormir tranquilamente, ainda que o vaso sanitário não fosse lá tão confortável. Quando saí, minha chefe me chamou para conversar e disse que analisaria a possibilidade de me demitir, haja vista minha evidente falta de vontade, e então eu a agradeci e voltei aos telefonemas e cálculos consideravelmente mais feliz, sentindo que há uma luz no fim do vaso, quero dizer, no fim do túnel. Em breve serei um desempregado feliz, embora me preocupe a falta de dinheiro que o desemprego acarretará, mas com isto me preocupo depois, o que importa agora é sair desta corporação demoníaca.

Que achas de irmos ao cinema no final de semana?




Beijos,

Um proletário à beira da demissão




De: Sonia
Enviada em: 11/03/2010
Para: Raskolnikov
Assunto: Faça o que tu queres pois é tudo da lei

Lindinho!

Sinto-me tão feliz quando decides, depois de tanta a opressão e exploração, enfrentar a situação. Há tantos outros empregos por aí! Vais fazer o que tu queres pois é tudo da lei. Aprendi isto numa música dum cara que se chama Raul Seixas, já ouviu? Muito louco, usava uns óculos escuros, cantava e tocava guitarra, misturava música daqui de dentro com a música de lá de fora, um arraso! Além do mais, convenhamos, qualquer emprego é melhor do que ser operador de telemarketing, ainda mais de cobrança! Não tenhas medo, liberte-se! Tomara que tua chefe te demita o quanto antes, pois desta forma podemos pegar o dinheiro do FGTS e viajar por aí, o que achas? Já até imaginei uma praia ou um sítio. Preferes praia ou sítio? Ahhh... como desejo ficar sitiada com você, meu proletário revoltado, meu herói comunista!


Estou torcendo por sua demissão!



Te amo

Sônia




De: Raskolnikov
Enviada em: 11/03/2010
Para: Sonia
Assunto: A barata kafkiana


Como fico feliz por serdes uma mulher que não se importa com o fato de um homem perder seu emprego! Sabe como é hoje em dia: se és um desemprego, torna-te automaticamente um alienígena social, transforma-te naquela barata do livro do Kafka.

Hoje me convidaram para conversar, a sós, numa salinha. Senti que era um momento especial, tive até frio na barriga. Quando me sentei na cadeira giratória, minha chefe, com aquela cara de mocreia, já cansada das minhas eternas pseudocagadas no banheiro e vencida em sua luta contra um vagabundo incorrigível, tirou da gaveta o papel de demissão, que assinei prontamente com uma linda rubrica, não sem antes dar uma lidinha (sou vagabundo, mas não sou burro). Foi um momento tão feliz! As trombetas soaram! Meus olhos chegaram a saltar da cara, brilhantes. Juntei minhas tralhas e piquei a mula, sem sequer me despedir, por que daí teria que aguentar os abraços e as falas e toda aquela falsidade. Saí em plena luz do dia, abandonando todos aqueles cálculos e telefonemas infames. Minha querida, estou radiante, a demissão é sempre um dos momentos mais felizes na vida de um homem, o que realmente não consigo compreender é como alguém é capaz de ficar feliz quando está empregado.

Beijo,



Assinado:


Desempregado feliz



De: Raskolnikov
Enviada em: 11/03/2010
Para: Sonia
Assunto: No Uruguai a maconha é legalize.


Não te importes com isto. Esqueças. Emprego ruim a gente deixa para trás. Levante a cabeça! Hoje é sexta-feira. Amanhã te encontro na rodoviária, pode ser? Que achas de levarmos as mochilas e de lá procurarmos um destino? Sabe aqueles road movies? Que acha de peregrinarmos? Depois a gente vê o que faz. Aliás, se não me exoneram, serei eu a abandonar o emprego. Será uma aventura e tanto, nós dois por este mundão afora. O primeiro destino pode ser o Uruguai, o que acha? Lá a maconha é legalize!

Até daqui a pouco



Assinado: Uma quase ex-empregada pública que não quer se encostar em seu emprego até morrer



E foi assim, ao fim dos empregos, que o amor deles se fortaleceu, pensou Raskolnikov. Nenhum homem que trabalha demais pode amar. O excesso de trabalho é o inimigo número um do amor, embora sua avó lhe dissesse, com muita frequência, que “quando a miséria entra pela porta, o amor saí pela janela”, o que não deixa, também, de ter seu fundo de verdade. Mas o caso é que Raskolnikov e Sonia não estavam miseráveis e tinham ainda muito o que viver. Ele levou algum tempo para se acostumar com o tempo livre, pois por mais que os homens detestem seus empregos, é fato que o trabalho lhes propicia um senso de rotina que muitas vezes os fazem se sentir seguros, embora possam ser demitidos a qualquer momento neste mundo de subempregos cada vez mais precários. Raskolnikov não sabia onde se empregaria novamente, e isto tampouco importou durante a viagem que ele trilhou com Sonia. Eles percorreram a América do Sul e gastaram todas as suas economias nisto. Foram até mesmo para Machu Picchu! Ao voltarem, Raskolnikov conseguiu algum sucesso como escritor, ao menos o suficiente para viver tranquilamente. Sonia, por sua vez, tornou-se terapeuta holística, o que no fundo sempre fora sua grande paixão, embora jamais tenha abandonado a poesia, à qual se dedicava, com ainda mais inspiração, em seu tempo livre. Cuidar da saúde física e mental das pessoas era muito mais prazeroso do que preencher papéis burocráticos na repartição pública, diante de filas homéricas de cidadãos ignorantes e alienados. O mesmo se pode dizer de Raskolnikov, que nunca mais precisou trabalhar como cobrador, evitando até mesmo passar diante de qualquer escritório de cobrança dali por diante, preferindo antes atravessar a rua. Bem que já dizia Leminski:



isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Nenhum comentário:

Postar um comentário