quinta-feira, 19 de março de 2015

SEGREDOS DE UM CONDOMÍNIO

O japonês já chegou cagando e vomitando por toda a escada. Bebeu tanto pelos botecos que perdeu o controle dos intestinos. Quando se deu conta de que a bosta desceria sem freio, abaixou as calças e mandou tudo para fora, ali mesmo, nos degraus. Já um pouco aliviado, mas nem tanto assim, terminou também por vomitar próximo à soleira. Procurou a chave do apartamento e depois o buraco onde teria que enfiá-la. Graças a deus, ao contrário da bosta e do vômito que saiu, a chave entrou. Quando um bêbado em seu estado consegue chegar em casa, convenhamos, é preciso comemorar. E assim, cambaleante, desabou ali mesmo, no sofá: as pernas para cima, um braço pendente ao chão, a boca aberta arfante, o hálito alcoólico perfumando o ambiente.

No dia seguinte todos os moradores do edifício comentavam sobre o pedaço de merda e a poça de vômito, mas Sakamoto, obviamente, decidiu se calar a respeito do acontecimento, ainda que o vômito, despejado exatamente em sua soleira, e somado à má fama que ele tinha no condomínio, praticamente o delatassem. Mas somente terão certeza se eu me declarar culpado, ele pensou. Foi então que, diante da não aparição do culpado, os moradores decidiram por bem iniciar uma investigação, abrindo uma comissão investigativa (espécie de CPI do cocô e do refluxo), na qual decidiram que o culpado não poderia sair impune. Encaminharam um pedaço da merda – cuidadosamente colhido no degrau da escada – para o laboratório mais próximo, com a finalidade de descobrir o DNA do cagador e iniciaram imediatamente a coleta da saliva de todos que moravam naquele bloco (todo mundo ali assistia CSI pela TV a gato e sabia que era exatamente assim que uma investigação séria funcionava). Quando chegou a sua vez de disponibilizar um pouco de saliva para a perícia, o japonês cagão, bebedor contumaz, playboy desempregado de carteirinha, fã das noitadas intermináveis, vendo-se sem alternativa a não ser assumir o crime, declarou-o a culpa perante todos. Argumentou que não havia como controlar aquilo, que fora tudo um acidente, que a caganeira era tão grande que certamente não conseguiria chegar até a privada, e blablablá. No entanto, ele não se conteve em apenas assumir o delito, pois, percebendo aquele tom policialesco que tomou conta do condomínio, resolveu, de uma vez por todas, jogar merda no ventilador, dizendo a todos: quem nunca aqui teve uma caganeira que atire o primeiro pedaço de bosta! Diante desta sábia investida samurai ficaram todos quietos, cada qual se lembrando de suas caganeiras no decorrer da vida em autênticos flashbacks, perpassando pela memória as mijadas infantis colchões afora, os vômitos incontroláveis depois de comer churrasquinho grego na rodoviária do centro da cidade, e também as viroses que a empresa de distribuição de água distribuía a todos sem distinguir a classe social. O nissei enchia o caneco todo dia e adorava comer prostitutas, mas era também profundamente cristão. Seus pais, dois velhinhos que tinham voltado ao Japão a fim de juntar dinheiro trabalhando numa fábrica de automóveis muito famosa, enviavam-lhe, todo mês, uma pequena porcentagem do que ganhavam, sem nenhum conhecimento do mal uso que o pimpolho tão querido fazia dos ienes. Foi então que, diante da invectiva magistral do japonês, fez-se um silêncio sepulcral, enquanto ele, colocado ao centro da multidão como se fosse Maria Madalena prestes a ser apedrejada, prosseguiu com seu discurso num tom e estilo curiosamente bíblicos:

__Não me culpem por cagar irmãos! Todos cagamos! Quantas cagadas vós já fizestes em vossas vidas! Eu mesmo, sendo morador deste hospitaleiro condomínio, ainda que bebendo além da média social, vos imploro: não julgueis meu caráter por conta da cachaça! A quantidade de álcool que um homem bebe não pode servir de parâmetro para julgar suas cagadas durante a vida! E vos digo mais: já que o problema é merda, deixo claro que caso me julguem, eis que jogarei merda no ventilador para voar na face de todos, sem distinção!

A vagabundice de Sakamoto lhe permitia observar o cotidiano condominial de modo muito mais apurado do que todos os outros moradores. Ele estava por dentro de tudo: cada fofoca, cada intriga, cada briga de casal, cada crise financeira familiar, cada ordem de despejo. Sakamoto sabia dos podres mais íntimos de praticamente todos os condôminos e, não raras vezes, se aproveitara dos momentos de raiva e angústia dos moradores para ouvir suas lamúrias e, claro, suas confissões, guardando cada segredo que lhe despejavam com a ética de um psicanalista.



A esta altura do campeonato já estavam todos muito preocupados. Ouviu-se então, em tom de espanto, um coro, um ohhhhh! diante da invectiva ninja. Nenhum dos condôminos sabia ao certo a quem o japonês se referia. Cada qual repassava seus pequenos crimes cotidianos pela consciência, levantando a sobrancelha, receando que seus atos mais pútridos viessem à tona. Seu João, do apartamento número 14, traía sua esposa com prostitutas (Sakamoto e ele eram clientes do mesmo meretrício), já Matias, do número 12, era viciadíssimo em jogo, chegando mesmo a deixar a chave do carro zero-quilômetro num bingo clandestino não muito distante dali, do qual Sakamoto, muito envolvido com a malandragem local, conhecia o dono. Fernanda, do 35, trabalhava na noite e inclusive fora contratada certa vez pelo seu João para lhe prestar seus serviços pessoais. Dona Quitéria, do 17, tivera um filho que abandonara quando era ainda uma adolescente (além de sonegar impostos, mas isto não contava, pois todos o faziam), enquanto Jorge, do 41, trabalhava como agiota, extorquindo e ameaçando assassinar pessoas caso não lhes pagassem o valor devido, evidentemente acrescido dos exorbitantes juros que só um agiota podia cobrar (no final das contas, concluía-se que aquele condomínio era muito barra pesada, apesar da aparência de lugar de classe média cristã e da localização pequeno-burguesa, próxima ao centro da cidade). Todos ali, sem exceção, tinham algo terrível a esconder. Foi então que decidiram, unanimemente, perdoar o japonês pela (pequena) cagada, inclusive cancelando a multa de quatro salários-mínimos que lhe seria imposta de acordo com as regras do condomínio. Aliás, cagar na escada revelou-se o menor dos crimes. Dotados que eram de bom senso, todos os condôminos passaram a considerar a cagada nissei um mero detalhe. No dia seguinte todos voltaram às suas respectivas rotinas, alguns roubando, outros matando, estes se prostituindo, aqueles traindo a esposa e tantos outros pequenos e grandes delitos, e assim tudo voltou a mais absoluta normalidade.

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